O sono (1937). Salvador Dalí
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Naquele dia, Victor Luiz despertou
suado e um pouco confuso, mas ao mesmo tempo, focado. O sonho que tivera naquela
noite ainda estava bem vivo em sua mente, como se fosse real e colasse em sua
memória.
Teve um leve desejo de compartilhar
com todos o que ocorrera, pois aquela experiência parecia resolver dilemas que
o atormentaram há décadas.
Como era um eremita em sua grande casa
cercada por uma muralha e arbustos espinhosos como uma fortaleza medieval,
contentou-se em se confessar com o seu gato preferido, chamado Borges, seu
confidente.
Amigos ou familiares? – Pensou. Há
muito sumiram.
Mas, em seu sonho, testemunhou um
encontro inusitado entre a Mentira, a Imaginação e a Razão. Essas três formas
psicológicas, tão diferentes entre si, como mulheres, se apresentaram e
iniciaram um diálogo que revelaria aspectos surpreendentes sobre suas personalidades
e propósitos.
A Mentira, bela, enigmática, jovem e
com seu sorriso sedutor e astuto, dirigiu-se à Imaginação, que se assemelhava a
uma fada ou algo parecido. E se apresentou como rainha das trapaças e do poder,
capaz de ser amiga ou inimiga das pessoas, dependendo de como fosse evocada.
A Imaginação, por sua vez, mostrou-se
altiva por ser a criadora de mundos maravilhosos e a educadora das pessoas
através da boa-fé e da brandura. Ela revelou a complexa realidade da
convivência humana de forma simples e diferente, ensinando através de metáforas
e alegorias:
- Mentira, digo-lhe que molduro a
existência dos aflitos, ajudando-os a superar seus traumas e dilemas. Fantasio
estórias para brincar e contar coisas. Trago o bem. Sou parte de um plano maior
do criador. – Disse a imaginação.
A Razão, com seu traje sóbrio e postura
equilibrada, era uma típica senhora ao estilo clássico; aproximou-se e juntou-se
à conversa.
A Mentira questionou o valor da
boa-fé da Imaginação em um mundo cheio de mentiras, e a Imaginação argumentou
que traz sonhos e esperanças aos aflitos.
A Razão ponderou que ambas têm seu
papel, sendo a Mentira útil em situações delicadas e a Imaginação fundamental
para a criatividade e aprimoramento humano.
O estranho sonho teve um exótico sabor
de novidade para Victor. Ou seria por causa do exercício cotidiano da escrita
no caderninho barato? Talvez o desejo pulsante de solucionar dúvidas
existenciais?
Certo é que, após voltar a sonhar, refletiu
sobre o mundo de mentiras em que viveu dos vinte aos quarenta anos. Uma vida
medíocre e comum, como vivia reclamando intimamente.
Mas, ganhei muito dinheiro
especulando, pensou, voltando ao dilema.
Hoje, com quarenta e poucos, no
sonho, passou a imaginar e criar. Escreve sobre o mundo ao redor, pinta telas e
vê as cores novamente. O cinza e preto são cores de um passado já inexistente,
imaginou.
O sonho libertou-o? Ou a Imaginação
modificou a sua realidade?
Sorriu dos momentos mais simples no
caminho para o trabalho, algo jamais feito antes; sentiu, novamente, o cheiro das
flores da praça em frente à casa, o canto dos pássaros e a tranquilizadora
sensação de estar vivo.
De repente, desperta! O ciclo prossegue.
E volta à sua rotina maçante, casa para o trabalho, chefe tedioso,
congestionamento, fumaça e solidão. De casa para o trabalho.
Ainda, assim, sonha em repetir a
experiência onírica. E recusa seus remédios.
Eterno sonhador, Victor, dias depois,
apesar do esforço, perdeu outra vez a Razão, segundo o Dr. Bacamarte.
Na consulta, retruca o Alienista, com
irritação, dizendo estar curado.
Foi internado, desta vez, num
hospital à moda da Casa Verde do Alienista, de Machado. Sonha em equilibrar-se.
A alta virá novamente. E o ciclo recomeça.
(*) advogado e escritor.


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