quarta-feira, 3 de maio de 2023

Sonho ou realidade?

 

O sono (1937). Salvador Dalí



                                   Sonho ou realidade?

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Naquele dia, Victor Luiz despertou suado e um pouco confuso, mas ao mesmo tempo, focado. O sonho que tivera naquela noite ainda estava bem vivo em sua mente, como se fosse real e colasse em sua memória.

Teve um leve desejo de compartilhar com todos o que ocorrera, pois aquela experiência parecia resolver dilemas que o atormentaram há décadas.

Como era um eremita em sua grande casa cercada por uma muralha e arbustos espinhosos como uma fortaleza medieval, contentou-se em se confessar com o seu gato preferido, chamado Borges, seu confidente.

Amigos ou familiares? – Pensou. Há muito sumiram.

Mas, em seu sonho, testemunhou um encontro inusitado entre a Mentira, a Imaginação e a Razão. Essas três formas psicológicas, tão diferentes entre si, como mulheres, se apresentaram e iniciaram um diálogo que revelaria aspectos surpreendentes sobre suas personalidades e propósitos.

A Mentira, bela, enigmática, jovem e com seu sorriso sedutor e astuto, dirigiu-se à Imaginação, que se assemelhava a uma fada ou algo parecido. E se apresentou como rainha das trapaças e do poder, capaz de ser amiga ou inimiga das pessoas, dependendo de como fosse evocada.

A Imaginação, por sua vez, mostrou-se altiva por ser a criadora de mundos maravilhosos e a educadora das pessoas através da boa-fé e da brandura. Ela revelou a complexa realidade da convivência humana de forma simples e diferente, ensinando através de metáforas e alegorias:

- Mentira, digo-lhe que molduro a existência dos aflitos, ajudando-os a superar seus traumas e dilemas. Fantasio estórias para brincar e contar coisas. Trago o bem. Sou parte de um plano maior do criador. – Disse a imaginação.

A Razão, com seu traje sóbrio e postura equilibrada, era uma típica senhora ao estilo clássico; aproximou-se e juntou-se à conversa.

A Mentira questionou o valor da boa-fé da Imaginação em um mundo cheio de mentiras, e a Imaginação argumentou que traz sonhos e esperanças aos aflitos.

A Razão ponderou que ambas têm seu papel, sendo a Mentira útil em situações delicadas e a Imaginação fundamental para a criatividade e aprimoramento humano.

O estranho sonho teve um exótico sabor de novidade para Victor. Ou seria por causa do exercício cotidiano da escrita no caderninho barato? Talvez o desejo pulsante de solucionar dúvidas existenciais?

Certo é que, após voltar a sonhar, refletiu sobre o mundo de mentiras em que viveu dos vinte aos quarenta anos. Uma vida medíocre e comum, como vivia reclamando intimamente.

Mas, ganhei muito dinheiro especulando, pensou, voltando ao dilema.

Hoje, com quarenta e poucos, no sonho, passou a imaginar e criar. Escreve sobre o mundo ao redor, pinta telas e vê as cores novamente. O cinza e preto são cores de um passado já inexistente, imaginou.

O sonho libertou-o? Ou a Imaginação modificou a sua realidade?

Sorriu dos momentos mais simples no caminho para o trabalho, algo jamais feito antes; sentiu, novamente, o cheiro das flores da praça em frente à casa, o canto dos pássaros e a tranquilizadora sensação de estar vivo.

De repente, desperta! O ciclo prossegue. E volta à sua rotina maçante, casa para o trabalho, chefe tedioso, congestionamento, fumaça e solidão. De casa para o trabalho.

Ainda, assim, sonha em repetir a experiência onírica. E recusa seus remédios.

Eterno sonhador, Victor, dias depois, apesar do esforço, perdeu outra vez a Razão, segundo o Dr. Bacamarte.

Na consulta, retruca o Alienista, com irritação, dizendo estar curado.

Foi internado, desta vez, num hospital à moda da Casa Verde do Alienista, de Machado. Sonha em equilibrar-se. A alta virá novamente. E o ciclo recomeça.

(*) advogado e escritor.

 

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