Entre dedos, pernas, estacas, mamas e urinóis
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Exames médicos, embora bem-vindos para a precaução
de doenças, nem sempre são agradáveis. Alguns, pelo contrário, põem à prova
nossa dignidade e vulnerabilidade.
Por exemplo, consideremos o exame de próstata:
muitos homens barbudos, já entrando na faixa dos quarenta e cinquenta o evitam,
embora haja uma humanitária aplicação de vaselina durante o famigerado. Pelo
menos, tenta-se diminuir o embaraço.
Há, também, para as mulheres, o desafiador
Papanicolau. Naquela posição invasiva em uma maca com suportes, pernas abertas,
expostas a olhares clínicos e, às vezes, cínicos. Intimidades à flor.
E a colonoscopia? Mesmo com os manuais médicos
sugerindo uma anestesia antes, com promessas de alívio, estar de lado e com o
bumbum exposto, antes de ser “empalado” no ânuo à moda Vlad Drácula, é
complicado.
Não adianta se irritar e reclamar: o Dr.Tepes (o
Empalador, em romeno), colocará, com um sorriso brejeiro, sua estaca moderna
(um tubo fino e flexível) na região íntima da vítima.
A mamografia, também, é um examezito do rol, porque
se colocam os seios numa placa e, depois disso, serão esmagados como se fossem
aquelas bolinhas anti-stress de amassar. Esvaziar a mente durante? Nem pensar.
E, como nem tudo são dedos, pernas abertas, mamas e
estacas, há o teste de fluxometria urinária.
Ao paciente, cabe, com a bexiga cheia e prestes a
estourar, direcionar o seu jato de xixi ao urofluxômetro, cujo o papel é medir
a velocidade e força do cobiçado jorro. Um aparelho com forma de um funil
conectado a um vaso.
A antessala do referido é uma cena à parte. Pode-se
ver um corredor apinhado de gente segurando seus copos cheios de água e sem
sede, cujas missões únicas na Terra é atingir o ponto de equilíbrio entre a
bexiga cheia e o acerto do buraco do bendito instrumento.
Rostos pesados, com medo de um jato precoce (apesar
das fraudas geriátricas usadas por muitos) e de falhar nessa luta forçada para
acertar o buraco do aparelho e, ainda, conseguir a maior velocidade do mijo.
Uma mistura de urgência e ansiedade.
Arlindo, aquele ex-fuzileiro e ex-atleta de
expressão grave, com um pesado suspiro, na primeira tentativa, diz: “Não
consegui”.
O médico, tentando disfarçar a contrariedade, fala:
“Tudo bem, o senhor pode voltar ao final da fila, dê algumas respiradas suaves
e beba mais seis copos de água”.
Arlindo, cabisbaixo, fecha parcialmente a braguilha
das calças de brim, caminha até o final da ala, encontrando-se com seu
conhecido, Manelito, também ex-militar e sequestrado pelo Alzheimer.
– Como vai, Manelito? – interrogou Arlindo.
– Mais ou menos, Arlindo, já é a terceira vez que
tento acertar o urinol e estou para ser banido do batalhão.
– Urinol? Batalhão? Como, assim? – perguntou
Arlindo.
– Sim. É como faço na caserna (casa), fecho os
olhos, abro a braguilha, pego o mosquetão e miro o penico, mas, sempre tem a
Dorotéia para passar o pano e detergente, né?
– Aqui? Bem, negativo, acerto às divisórias do
consultório, o computador e, pela última, foi o médico. Isso é uma sacanagem!
(*) cronista
e contista.

