domingo, 30 de abril de 2023

Tonzinho, o médico e o bolo.


Fonte: Google

Tonzinho, o médico e o bolo.

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Crianças! Esses seres amorosos e anteprojetos de adultos, que nos trazem paz e amor, mas, ao mesmo tempo, testam nossa paciência como ninguém.

Em um inesquecível aniversário de cinco anos, o cristão batizado como Antônio da Paz, e carinhosamente chamado de Tonzinho, revelou o seu superpoder infantil.

A sala estava repleta de balões coloridos, brinquedos, atrações e comidas típicas, como pipoca, brigadeiro, balas e salgadinhos.

Os adultos, seguindo a tradição, se empanturravam de bebidas, petiscos e até churrasco.

Crianças e adultos riam, cantaram, choravam e se divertiam entre as mesas.

Um típico, feliz e democrático aniversário infantil. Até então.

De repente, croc! Ai! Um som seco e agudo ecoou na sala.

Um gemido saiu da boca do melhor amigo do pai, após cair diretamente no duro azulejo da sala de visitas, resultando em uma situação constrangedora.

Tonzinho, astutamente, puxou a cadeira de seu amigo, fazendo-o cair no chão!

O pai, um homem antes bem corado, mudou de cor para um tom meio cinza, meio branco. Estava cabrobó.

Enquanto a mãe de Tonzinho, com um sorriso fatigado no rosto, somente observava a cena. Não sabia onde se meter e quase desmaiou.

Foi tomar água com açúcar na cozinha e sequer voltou de lá. Sumiu.

­­-Filhinho de uma peste, vem cá! Estou com o meu cinturão de couro para te dar umas boas lapadas! ­ Disse o pai, com mais uma de suas habituais encenações. Ele nunca agrediu o Tonzinho.

Conversa sobre os comportamentos do Tonzinho? Nada adiantava. Era um verdadeiro vulcão.

Ainda insatisfeito, fez da mesa um carrossel, girando sem parar enquanto olhava como um atirador de elite o chique bolo branco e azul com chantilly de dois andares.

E gargalhava, pois, ainda em seus pensamentos infantis, ele era literalmente o centro das atenções.

- Não vai me pegar, papaizinho! - Zombava, mostrando a desafiadora língua vermelha, como a Excalibur.

Como todos esperavam, a mesa e o bolo foram ao chão.

A sala inteira pareceu congelar por um instante, enquanto todos assistiam, de olhos estufados e bocas abertas, à nova cena que se desenrolava diante deles.

O som estridente da madeira se partindo e das porcelanas holandesas da mãe se estilhaçando ecoou pela sala, misturando-se ao grito abafado de alguns convidados.

O elegante bolo de dois andares com chantilly e laço azul, que antes era uma luxuosa sobremesa, espalhou-se pelo chão como uma pasta azul e lamacenta, misturando-se aos cacos das bandejas e dos copos quebrados.

O ar ficou impregnado do cheiro adocicado do bolo e do amargo odor dos choros e soluços derramados. Sim, uma salada de emoções.

E, na confusão, Tonzinho aproveitava e fugia pelo buraco da cerca do quintal, em sua apoteose.

Um colega de escola filmou tudo com seu moderno celular e, rapidamente, postou no Instagram, YouTube e Facebook. Legal! Ganhei várias curtidas! Estou feliz!

- Esse menino tem hiperatividade - avaliou o padeiro da cidade, em seu delirante e oral laudo, seguindo a moda atual dos diagnósticos amadores.

- Ele já foi falar com um padre de Roma? - Sugeriu um aficionado em filmes de exorcismo, como O Ritual, de Anthony Hopkins.

O Juiz de Menores, testemunhando tudo e, sempre judicioso e formal, começou a falar de leis, artigos e das vantagens do formidável Estatuto da Criança, com suas medidas a serem aplicadas no caso do pequeno infrator:

- Vejo uma possibilidade de notificar o caso ao Comissário de Polícia Baretta. Realmente, é um caso de Polícia e Justiça - sentenciou.

Outra convidada, a Dona Imaculada Conceição de Maria, antes padrão de discrição quase monástica, não conteve uma longa crise de risos e soluços, desculpando-se em seguida, após olhares de censura.

Meu Deus, minha Nossa Senhora, Virgem Maria, chamem um médico para salvar este pobre cristão! - Gritou uma Beata já um pouco velhinha, dando-se conta após vários minutos da queda do convidado.

Era uma mulher devotada, frequentadora assídua da missa, faça chuva ou sol, e rezava de joelhos, mesmo com uma artrose neles.

E foi o bêbado oficial da cidade, que encerrou a contenda, dizendo:

- Estou um tanto tonto, mas nem tanto... impossível chamar um médico. É o médico da cidade quem está aí no chão! Doutor Epaminondas!

 - Garçom, coloque o gelo do meu copo no calombo da cabeça dele, traga uma dose reforçada para o Doutor e aumente o som!

 - Amigos, não exagerem, criança d´hoje é assim mesmo!

(*) Advogado e cronista.


quinta-feira, 27 de abril de 2023

A inusitada tradição de furtar galinhas na Sexta-feira Santa

 

Fonte: Google


A inusitada tradição de furtar galinhas na Sexta-feira Santa

Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)

Infelizmente, não roubei nenhuma galinha na Sexta-feira Santa deste ano. E nem nas últimas anteriores.

Explico: não pertencia ou pertenço a alguma gangue de ladrões de galinhas. Ao menos, profissional.

Esta confissão traz-me vergonha mais pelo sumiço das velhas tradições da Semana Santa, do que pela minha condição de ex - infrator dos códigos penal e civil.

Posso garantir que, há muito tempo, na minha Vila de Boa Esperança, os ladrões da Sexta-Feira da Paixão, dias antes, avisavam da visita especial da comitiva dos bufões.

O amigo Manoel, sempre pronto, fazia seu papel de sondagem dos melhores galinheiros com acessos mais fáceis e com galinhas rechonchudas.

E, ainda, no mesmo passo, dava o recado ao dono:

-Sexta-feira Santa passaremos aqui para buscar nossa galinhaça. - Código dado.

Era tudo combinado. Brincadeira saudável. Troça. Uma prática cultural bem arraigada na época, mesmo com a incompreensão de hoje.

Tinha um certo lirismo no sentido da união humana — ou seja, uma tradição curiosa repleta de fantasia, galhofas e de consciência no valor dos pequenos momentos.

Havia, sim, um doce clima de expectativa e descontração.

Eram familiares, vizinhos e amigos pregando uma espécie de trote um nos outros. Nenhuma pessoa gritava pega-ladrão.

Os mais espertos, avisados da comitiva, cedinho, escondiam seus melhores galináceos dentro de casa.

À noite, galos velhos, frangos e galinhas moribundas eram os sacrificados no grande expurgo e banquete pagão.

Galinha d'angola e peru? Só se por extremo descuido do dono. Sorte grande para os ladrões. Muita festividade.

Lembro-me que, quando mais jovem, pratiquei o grave delito de levar um velho pato do terreiro de um vizinho.

Não peguei mordida do cachorro Tubarão e nem fui alvejado com o tiro de sal de sua soca-soca, pois Manoel, zeloso, tinha avisado antes ao dono do pato. Melhor.

E, como o grande mestre Jesus estava bastante ocupado em ressuscitar, fui perdoado em seguida. E o pato pagou o pato.

Destino selado: horas e horas de panela de pressão. Grátis é grátis. E, num forno a lenha, melhor.

Infelizmente, o grupo se extinguiu por obrigações familiares e de trabalho. Personalidades dignas do conto Ali Babá e os Quarenta Ladrões.

Hoje, cada um, com lembranças, risos e prantos, exalta o famoso “no meu tempo era assim”.

Bom ou ruim? Só o tempo dirá.

Bem, só sei da mudança dos costumes da velha Vila, com as primeiras casas de muros altos, câmeras e cercas elétricas.

Hoje em dia, reflito sobre os verdadeiros salteadores agindo com seriedade à solta, aproveitando-se do declínio da base social.

Pais, jovens e antigas tradições do mesmo modo se isolam nas telas. Muros das desconfianças. Tudo é desconfiança, comparando-se a nossa ancestral e fraterna brincadeira juvenil.

Hoje, existimos como galinhas presas nos galinheiros, cantando e rindo sob a traiçoeira impressão de segurança.

A zona rural? Sim. A bucólica zona rural.

Ainda atrai um certo cheiro de saudosismo. Porém, hoje, como alguns se orgulham: - é melhor comprar galeto ou frango de granja tratados.

Criar as cobiçadas galinhas caipiras, principais alvos da antiga brincadeira, também, está em desuso. Exige muita mão de obra e custos com ração, dizem alguns.

Felizmente, são as últimas fortalezas da extraordinária tradição. E, assim, acompanham o trajeto da vida. Ainda resistem.

Os costumes e tradições vão-se, pouco a pouco.

E, de madrugada, ouvirei mesmo o som mecânico e metálico do galo saído do smartphone de meu vizinho do muro alto.

Tempos idos ao cantinho da memória do saudosismo gostoso.

(*) Advogado e cronista.

 

quarta-feira, 19 de abril de 2023

A sabedoria da Tia Bete

 


A sabedoria da Tia Bete

Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)

Há alguns dias, estava refletindo sobre o formato das famílias de hoje. Eu, por exemplo, possuindo uma visão antiquada, não me encaixo e ainda estou me adaptando às modernas famílias que podem ser redondas, retangulares, triangulares, e possuem outras formas que a sociedade, os relacionamentos ou o pensamento permitem.

Será que sou o único assim?

Acho que parte dessa dificuldade veio do fato de que, quando criança, tive um péssimo relacionamento com um tal joguinho de encaixe conhecido.

Sim, aquele joguinho interativo muito popular que, segundo os pedagogos, busca, ludicamente, que os infantes acomodem peças geométricas de tamanhos e formas diferentes em um tabuleiro, trazendo vários benefícios cognitivos.

Naquela brincadeira, que via como tediosa e sem propósito, ficava preso e obstinado apenas a justar a minha teimosia infantil à bendita e solitária pecinha quadrada do tabuleiro. E o universo da aula se limitava apenas a isso.

Tia Bete, minha professora da alfabetização, esforçava-se com paciência para me ajudar a compreender as outras formas geométricas.

Suas mãos delicadas e habilidosas moviam-se com presteza junto às minhas, e era uma vozinha quase infantil e mimosa que buscava me encorajar ao mundo do triângulo, círculo e hexágono. No entanto, nada conseguiu vencer a minha resistência e birra infantil.

Será que ela já adivinhava o impacto no futuro?

Porém, só sei que, apesar dos esforços da Tia Bete, fiquei reprovado na turma da alfabetização por ver o mundo de forma quadrada.

Ainda bem que, naquela época, não fui diagnosticado indevidamente com algum distúrbio ligado à minha aversão às outras formas geométricas.

Daí, após décadas e décadas em dubiedade com a caretice, agora estou a entender as novas famílias redondas, triangulares e, até, hexagonais com a mente mais aberta.

A propósito, soube que está sendo discutido um projeto de lei para conceder uma espécie de pensão alimentícia aos pets. Tal fato muito me impactou, porque ainda mal me acomodei com o começo das novas famílias humanas e seus diversos formatos, e já surgiram os pets (cachorros, gatos e outros) como membros da família.

Chamar cachorro de filho, neto e bisneto, ou outra qualificação familiar dos descendentes humanos, até já estou acomodando na minha contemporânea cabecinha no formato de um pentágono.

Porém, pensão alimentícia aos pets e, quem sabe, direito a plano de saúde e jazigo particular junto à família, por exemplo, por ora, estou assimilando as ideias. Mas, a visão está se ampliando.

Afinal, depois dessa notícia, colocando as peças da minha cabeça no lugar e com arrependimento, penso mesmo que não deveria ter desobedecido a Tia Bete e nem sido reprovado em figuras geométricas.

Ela tinha razão. E como tinha.

(*) Advogado e cronista.

 

segunda-feira, 17 de abril de 2023

A orquestra, o maestro e o tempo

 


A orquestra, o maestro e o tempo  

* Fabricio Carvalho Amorim Leite

Naquela ensolarada manhã de domingo, meu filho de 19 anos despertou cedo, ansioso para assistir à apresentação da orquestra sinfônica ao lado de sua namorada.

Enquanto o observava, mal podia imaginar que aquele momento mágico o levaria a uma viagem ao passado, revelando um enredo entrelaçado que envolvia a todos nós.

No mesmo mês, há quase duas décadas, nos ímpetos da juventude, subi no palco e declarei toda a paixão tão bem contada pelos poetas.

Minha esposa, pela surpresa, emocionada e nervosa, conteve o medo de um aborto espontâneo.

Meu filho, (in) conscientemente, no ventre, certamente, sentiu o momento.

A plateia cheia, e com sentimentos ambíguos de espanto, admiração e reprovação, testemunhou o início de um amor que desafiaria o tempo.

O maestro, um esbelto e bem alinhado quarentão, trajando um belo fraque negro e sua inconfundível boina, ficou estático e, com sua batuta e regência de décadas, parou o espetáculo em um gesto empático e sensível.

Com a força de Vênus ao meu lado, parei por alguns segundos para tomar ar, pisei firme no chão do palco lotado e olhei em direção à minha esposa.

E com todas as emoções presas nos pulmões, descarreguei em alto e bom som, sem gaguejar:

 - É quem escolhi até o meu último suspiro neste mundo! - Depois, levei as frias mãos ao peito, como se, involuntariamente, tivesse reforçando os sentimentos. 

Agradeci ao maestro. Desci os pequenos degraus. Caminhei em direção a minha esposa, sem sentir o chão, e, em seguida, tirei-a do assento, em gesto carinhoso, com um beijo caloroso.

E, alguns, contiveram a leve inveja diante da ousadia em um palco lotado. Porém, expressei minha paixão. Sim, como proclamei...

Lado a lado, partimos com Vênus.

Atualmente, o maestro, com cabelos brancos e sua habitual boina na cabeça, ainda rege a orquestra.

O tempo, implacável e incansável, como um rio, seguiu seu curso, mas não roubou a essência e a memória eterna daqueles dias vividos intensamente.

Ao longo dos anos, eu e minha esposa mantivemos a cumplicidade e o amor que nos conectou naquele dia. Nossos planos e sonhos, mesmo diante das adversidades, persistem como uma melodia tocada pelo maestro tempo.

Meu filho, vivendo sua própria história, talvez carregue em seu coração sonhos semelhantes aos nossos. Quem sabe...

Naquela manhã, como hoje, a canção "Força Estranha", de Caetano Veloso, ressoava como uma trilha sonora para essa narrativa, ilustrando a passagem do tempo e a persistência do amor verdadeiro. Afinal, como diz a letra "o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece".

Nestas palavras, entrelaçadas com poesia e música, fizeram-me refletir sobre a natureza efêmera da vida e a importância do amor e dos relacionamentos que cultivamos.

Afinal, o tempo, como o grande maestro da vida, pode criar uma harmônica música de momentos inesquecíveis.

(*) Advogado e escritor.

domingo, 16 de abril de 2023

Eça de Queirós, o Contador de Urubus e o meu solar de Torges

 


A saudade, ou a necessidade de um refúgio bucólico, trouxe-me, nestes dias, a ler o agradável conto Civilização, de Eça de Queirós, para, igualmente, viajar através de seus personagens.

Por vez, em resumo, a história narra, dentre outras passagens, a vida de um fidalgo português e culto chamado Jacinto.

Este, estressado com a vida urbana e suas parafernálias tecnológicas para época, como a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone e outros, decide realizar viagem a sua propriedade rural.

Eça chamou-a de solar de Torges, situada num povoado do mesmo nome na zona serrana de Portugal.

Acontece que, por um infortúnio, a maior parte da grande bagagem da comitiva não pôde chegar na propriedade e o fidalgo português e sua suntuosa comitiva tiveram que realizar uma rústica estadia sem os luxuosos mimos encomendados.

Entretanto, de tudo não foi perdido, porque o personagem Jacinto, passado o choque por sair da “civilização”, até que gostou da simplicidade do local, sem os luxos e frivolidades da cidade.

E, trazendo um pouco para mim, inspirado no conto acima, não que eu seja um fidalgo ou alguém parecido, como o personagem de Eça. Por isso, é que recentemente fiz uma viagem ao pequeno povoado de Mundo Novo dos Amorims, em Esperantina/PI, fundado a duro trabalho, entre os anos 1900 e 1920, por membros da minha família.

Chegando no “meu solar de Torges”, logo notei que o estimado e lúcido anfitrião José, de quase 90 anos, sabiamente, não possuía um celular, ou esta geringonça, como fala.

Por bisbilhotice, perguntei-lhe que horas jantava:

— Religiosamente, 4 horas da tarde. Disse-me, de forma taciturna.

Admito que achei estranho, como homem “ supercivilizado” que sou, alguém jantar às 4 h da tarde, mas imagino que seja um antigo hábito local.

E a sua ocupação principal? Indaguei.

— Assistir novela e jogos de futebol.

Aí vi um certo costume da “civilização”, por ser adepto da televisão. Menos ruim.

Em seguida, silenciosamente, aplicando uma tática metódica, hábil e paciente, pus-me a investigar a fundo os hábitos de seu José.

Depois de muita observação, notei que este, como o famoso Jacinto, de Eça, tinha ao entardecer, ao contemplar o horizonte, um inusitado momento de “doce paz crepuscular”.

E, não sei se é comum na região, - o que será objeto de futura investigação -, ou só do meu anfitrião, mas soube que era um hábito antigo dele contar o número de urubus.

Sim, urubus! Podiam ser bem-te-vis, xexeús, corrupiões .... Porém, ele gosta mesmo é de contar os afamados abutres.

Diante deste estranho hábito, para um “supercivilizado”, fiquei mais curioso ainda, pois, para a maioria das pessoas da “civilização”, os urubus são aves feias, nojentas, avarentas e comem carniça. Ou seja, possuem, há séculos, uma enorme má fama.

Por isso, com extrema cautela nas palavras, e para buscar mais detalhes do digno ofício, fui falando-lhe, de forma geral, sobre aves, como são bonitas... vistosas...livres...úteis para o mundo...

Tive o cuidado de não discorrer a respeito de futebol, porque o símbolo do Flamengo é um urubu, para não lhe causar certos melindres...desconfianças na séria investigação em andamento...

Já ao entardecer, notei que meu anfitrião, em sua privativa cadeira reforçada de fitilho azul-celeste, ficara calado, imóvel e olhava de forma fixa - praticamente, sem piscar - para uma grande árvore sem folhas no horizonte.

Tinha ali uma verdadeira feição austera de paz contemplativa, como, também, senti. E compartilhei o momento, por empatia e prazer.

Achei por bem não intervir e nem puxar conversa, porque poderia, de vez, estragar o sagrado ritual vespertino em curso. Ou, até mesmo, ser convidado a sair de seu observatório privado.

Por volta das sete horas da noite, ao que percebi, como amador e curioso na nobre profissão, a urubuzada estava toda empoleirada. E, pensei: agora é a vez da minha pergunta final:

Seu José, quantos urubus o senhor contou hoje?

Alguns minutos se passaram, como fosse uma eternidade, abstraindo profundamente, ele olhou para mim e disse:

— Ah, meu caro! — Exclamou ele. — Esta cerimônia de contagem faço mentalmente, por satisfação mesmo.

— E tenho medo que se eu revelar o segredo da contagem do número de urubus da árvore fique azarado...amaldiçoado...doente... — Completou.

Então, compreendendo a arraigada superstição, encerrei a conversa, desejando-lhe uma boa-noite.

Azar ou mau agouro? Pensei. O hábito pitoresco de contar urubus, por certo, não lhe causou males, porque o anfitrião tinha quase 90 anos com a saúde ótima e invejável.

Com certeza, é um método antigo, eficaz e secreto de meditação ou de “doce paz crepuscular” encontrado, ponderei.

Porém, depois de muito refletir a respeito, conclui, no meu inquérito particular, que o seu José deve ser um dos únicos contadores de urubus da região ou do mundo, o que o torna valiosíssimo para a natureza e humanidade.

Bem que um perito em observação de urubus (ou em contagem do número deles) é imprescindível, pois são aves muito importantes para a limpeza do ecossistema. De fato.

Só sei que, mesmo não me revelando os segredos do ofício, caso, subitamente, a urubuzada surja doente, meu proativo anfitrião, com certeza, irá repassar a grave notícia às autoridades da “civilização”.

De qualquer forma, passada a minha estadia no campo, percebi que o seu José pode buscar refúgio — e enxergar beleza — na simples contemplação da natureza.

Nem que seja num momento de paz para contar docemente o número de urubus ao empoleirarem-se numa árvore desfolhada...

Diga-se, paz esta como Eça narra:

“Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda, em Torges, sem fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre o canto dos boieiros. ”

Por isso, no próximo mês regressarei para o “meu solar de Torges”...

(*) Fabrício Carvalho Amorim Leite, advogado e escritor.