A saudade, ou a necessidade de um refúgio bucólico,
trouxe-me, nestes dias, a ler o agradável conto Civilização,
de Eça
de Queirós, para, igualmente, viajar através de seus personagens.
Por vez, em resumo, a história narra, dentre outras
passagens, a vida de um fidalgo português e culto chamado Jacinto.
Este, estressado com a vida urbana e suas
parafernálias tecnológicas para época, como a máquina de escrever, os
autocopistas, o telégrafo Morse, o fonógrafo, o telefone e outros, decide
realizar viagem a sua propriedade rural.
Eça chamou-a de solar de Torges, situada
num povoado do mesmo nome na zona serrana de Portugal.
Acontece que, por um infortúnio, a maior parte da
grande bagagem da comitiva não pôde chegar na propriedade e o fidalgo português
e sua suntuosa comitiva tiveram que realizar uma rústica estadia sem os
luxuosos mimos encomendados.
Entretanto, de tudo não foi perdido, porque o
personagem Jacinto, passado o choque por sair da “civilização”,
até que gostou da simplicidade do local, sem os luxos e frivolidades da cidade.
E, trazendo um pouco para mim, inspirado no conto
acima, não que eu seja um fidalgo ou alguém parecido, como o personagem de Eça. Por isso, é que recentemente fiz
uma viagem ao pequeno povoado de Mundo
Novo dos Amorims, em Esperantina/PI,
fundado a duro trabalho, entre os anos 1900 e 1920, por membros da minha
família.
Chegando no “meu solar de Torges”, logo notei que o estimado e lúcido
anfitrião José, de quase 90 anos,
sabiamente, não possuía um celular, ou esta geringonça, como fala.
Por bisbilhotice, perguntei-lhe que horas jantava:
— Religiosamente, 4 horas da tarde. Disse-me, de
forma taciturna.
Admito que achei estranho, como homem “
supercivilizado” que sou, alguém jantar às 4 h da tarde, mas imagino que
seja um antigo hábito local.
E a sua ocupação principal? Indaguei.
— Assistir novela e jogos de futebol.
Aí vi um certo costume da “civilização”, por ser
adepto da televisão. Menos ruim.
Em seguida, silenciosamente, aplicando uma tática
metódica, hábil e paciente, pus-me a investigar a fundo os hábitos de seu José.
Depois de muita observação, notei que este, como o
famoso Jacinto,
de Eça,
tinha ao entardecer, ao contemplar o horizonte, um inusitado momento de “doce
paz crepuscular”.
E, não sei se é comum na região, - o que será objeto de futura
investigação -, ou só do meu anfitrião, mas soube que era um hábito antigo dele
contar o número de urubus.
Sim, urubus! Podiam ser bem-te-vis, xexeús,
corrupiões .... Porém, ele gosta mesmo é de contar os afamados abutres.
Diante deste estranho hábito, para um
“supercivilizado”, fiquei mais curioso ainda, pois, para a maioria das pessoas
da “civilização”, os urubus são aves feias, nojentas, avarentas e comem
carniça. Ou seja, possuem, há séculos, uma enorme má fama.
Por isso, com extrema cautela nas palavras, e para
buscar mais detalhes do digno ofício, fui falando-lhe, de forma geral, sobre
aves, como são bonitas... vistosas...livres...úteis para o mundo...
Tive o cuidado de não discorrer a respeito de
futebol, porque o símbolo do Flamengo é um urubu, para não lhe causar certos
melindres...desconfianças na séria investigação em andamento...
Já ao entardecer, notei que meu anfitrião, em sua privativa
cadeira reforçada de fitilho azul-celeste, ficara calado, imóvel e olhava de
forma fixa - praticamente, sem piscar - para uma grande árvore sem folhas no
horizonte.
Tinha ali uma verdadeira feição austera de paz
contemplativa, como, também, senti. E compartilhei o momento, por empatia e
prazer.
Achei por bem não intervir e nem puxar conversa,
porque poderia, de vez, estragar o sagrado ritual vespertino em curso. Ou, até
mesmo, ser convidado a sair de seu observatório privado.
Por volta das sete horas da noite, ao que percebi,
como amador e curioso na nobre profissão, a urubuzada estava toda empoleirada.
E, pensei: agora é a vez da minha pergunta final:
Seu José,
quantos urubus o senhor contou hoje?
Alguns minutos se passaram, como fosse uma
eternidade, abstraindo profundamente, ele olhou para mim e disse:
— Ah, meu caro! — Exclamou ele. — Esta cerimônia de
contagem faço mentalmente, por satisfação mesmo.
— E tenho medo que se eu revelar o segredo da
contagem do número de urubus da árvore fique azarado...amaldiçoado...doente...
— Completou.
Então, compreendendo a arraigada superstição,
encerrei a conversa, desejando-lhe uma boa-noite.
Azar ou mau agouro? Pensei. O hábito pitoresco de
contar urubus, por certo, não lhe causou males, porque o anfitrião tinha quase
90 anos com a saúde ótima e invejável.
Com certeza, é um método antigo, eficaz e secreto de
meditação ou de “doce paz crepuscular” encontrado, ponderei.
Porém, depois de muito refletir a respeito, conclui,
no meu inquérito particular, que o seu José
deve ser um dos únicos contadores de urubus da região ou do mundo, o que o
torna valiosíssimo para a natureza e humanidade.
Bem que um perito em observação de urubus (ou em
contagem do número deles) é imprescindível, pois são aves muito importantes
para a limpeza do ecossistema. De fato.
Só sei que, mesmo não me revelando os segredos do
ofício, caso, subitamente, a urubuzada surja doente, meu proativo anfitrião,
com certeza, irá repassar a grave notícia às autoridades da “civilização”.
De qualquer forma, passada a minha estadia no campo,
percebi que o seu José pode buscar
refúgio — e enxergar beleza — na simples contemplação da natureza.
Nem que seja num momento de paz para contar docemente
o número de urubus ao empoleirarem-se numa árvore desfolhada...
Diga-se, paz esta como Eça narra:
“Àquela hora, decerto, Jacinto, na varanda, em Torges, sem
fonógrafo e sem telefone, reentrado na simplicidade, via, sob a paz
lenta da tarde, ao tremeluzir da primeira estrela, a boiada recolher entre
o canto dos boieiros. ”
Por isso, no próximo mês regressarei para o “meu
solar de Torges”...
(*) Fabrício Carvalho Amorim Leite, advogado e escritor.

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