segunda-feira, 30 de outubro de 2023

Caçando Pedrinho


 

Caçando Pedrinho

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

E era onça mesmo!

 

Com isso, inicia-se a saga de Pedrinho e sua turma, no Sítio do Picapau Amarelo, de Lobato, preparando-se para a arriscada aventura de enfrentar a famosa e terrível onça da Toca Fria, em Caçadas de Pedrinho.

 

A sequência é violenta, com tiros de canhão, facas e coronhadas. Nos últimos momentos do animal, assim atacada de todos os lados, a onça não teve remédio senão morrer. Estrebuchou e foi morrendo. Quando deu o último suspiro, Pedrinho, no maior entusiasmo de sua vida, entoou um canto de guerra: - Ale guá, guá, guá...

 

Hoje, vejo a narrativa com um tiquinho a mais de maturidade. Afinal, é uma obra de 1933. E a selvajaria ainda é própria dos humanos.

 

No entanto, há um fetiche em cravar as garras na obra de Lobato, sob a batuta da onipresente, e radical patrulha do cancelamento.

 

São sentimentais (ou afoitos ao julgar), e colocam o Sítio na mira das teclas e críticas.

Caçam as palavras politicamente incorretas ou ofensivas - e conseguem, às vezes, fazer com que editoras cortem trechos devido à pressão econômica.

 

Como bisbilhoteiro que sou, descobri que há sessenta e cinco palavras relacionadas a caça, caçadas, caçadores e setenta menções a onças em Caçadas de Pedrinho.

 

Em seguida, imaginei o título da obra sendo abatido pelo safári digital, transformando-se em “(Caçadas) de Pedrinho, tachado.

 

Acaso, se houvesse a revisão da obra, cortando-se só essas palavras, jamais liberariam a tal caçada do infrator Pedrinho, dando-lhe, de brinde, um belo sermão e conduzindo todos ao delegado.  

 

Não seria incrível criar uma Delegacia de Censura de Diversões Públicas na Internet (DCPI), seguindo-se com o parecer: “O presente livro, retrata maus-tratos contra uma onça indefesa, cometidos por crianças, em um livro infantil, com linguagem bastante antiecológica e cruel para o século XXI. Portanto, ao nosso ver, opinamos pela Não Liberação”. 

 

Felizmente, mesmo com risco de Lobato, Pedrinho e sua turma serem caçados e cancelados, não considero ofensivo para as crianças lerem o texto original. Isso porque a formação de um bom leitor crítico requer a premissa de não aceitar tudo que lê.

 

Quando criança, assisti a muitos episódios do Sítio e, mesmo assim, não me tornei um exímio caçador de onças ou especialista no ramo de safáris.

 

Aliás, não sou de gabolices. E o mais próximo que chego de ser um bom caçador é atirar com espingarda de chumbinho em circos, abatendo bombons e chocolates.

 

Ah, como amaria que Emília, com seu pó de pirlimpimpim, me transportasse para o Sítio do Picapau Amarelo original, me livrando desta tediosa e cruel expedição de caça.

 

E era Pedrinho mesmo!

 

(*) cronista e contista.

 

quarta-feira, 25 de outubro de 2023

À Morte,


 À Morte,

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Cara morte,

Sei da sobrecarga de trabalho em um planeta cheio de guerras, catástrofes e a última pandemia.  Aliás, pensou em contratar ajudantes?

 

Por que, então, fui deixado num lugar tão estreito, com o odor de madeira recém-talhada?

 

Seria esse o destino de alguém como eu?

 

Nessa prisão, senti que algo metálico tocar minha mão. Era a antiga ambulância de brinquedo, presente de minha falecida avó.

 

Com muito esforço, sacudi a pequena maçaneta do brinquedo e um som metálico e familiar me distraiu por alguns minutos.

 

Aflito novamente, comecei a me interrogar se teria sido enterrado vivo e quem seria feito isso. Foi um mero descuido ou um cruel capricho seu, Morte?

 

Meus gritos desespero ecoaram, tal qual Fortunato, no conto de Poe. Obra bem fresca no meu espírito: (...) Mal havia eu começado a acamar a primeira fila de tijolos, descobri que a embriaguez de Fortunato se tinha dissipado em grande parte.

O primeiro indício disto que tive foi um surdo lamento, lá do fundo do nicho. Não era o choro de um homem embriagado. (...) Deitei a segunda camada, a terceira e a quarta e depois ouvi as furiosas vibrações da corrente. O barulho durou vários minutos, durante os quais, para gozá-lo com maior satisfação, interrompi meu trabalho e me sentei em cima dos ossos.

Quando afinal o tilintar cessou, tornei a pegar na colher e acabei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima camadas.

(...) Uma explosão de berros fortes e agudos, provindos da garganta do vulto acorrentado, me fez recuar com violência. Durante um breve momento hesitei. Tremia. (...)

 

Ah, quisera eu ter sido enterrado numa adega com bons vinhos! Ao menos, teria uma eternidade mais afortunada.

 

Mas essa eternidade pesou sobre mim, esmagando minha já fatigada alma em uma carcaça imóvel.  

 

Por acaso, transformei-me um novo Sísifo, só que injustamente castigado por enganá-la? Por mais bizarro que pareça, suplico por seu socorro.

 

Sonho com a lembrança do brinquedo de minha infância e com a aparição de minha finada avó, ansiando sair desse lugar. 

 

Morte, enquanto vivo, jamais imaginei que diria isso, mas preciso de sua presença com urgência.

Com esperança.

* cronista e contista.

segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Vou-me embora de Pasárgada*


 

Vou-me embora de Pasárgada*

 *Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Vou-me embora de Pasárgada,

Sem emprego, sem valor,

Sem valia, deixei Pasárgada.

Vou-me embora de Pasárgada,

 

Lá não fui feliz,

Lá a vida era carente meretriz,

De um modo inconsequente,

Maria, lusitana-insana, foi a confidente.

 

Montei nas feras de aço,

No estaleiro foi percalço,

Tentei trabalhar no sinal,

Malabares, um ato final.

 

E na dúvida de cada dia,

Invoquei forças ocultas (o além),

Números da sorte, alguma alegria.

Mas em Pasárgada, só desdém.

 

Oh Pasárgada, Pasárgada,

Lá, outra civilização,

Lá, sem um tostão,

A vida era desilusão.

 

Vou-me embora de Pasárgada,

Busco rumo, outra estrada,

Onde papel-moeda é o amor

E, assim, tranquilo e amante.

 

* Agradeço a Manuel Bandeira pelo poema Vou-me embora pra Pasárgada (1930).

 * cronista e contista.

 

terça-feira, 10 de outubro de 2023

Miniguia Irrelevante para Celebrar um aniversário com o seu Pet


 

          Miniguia Irrelevante para Celebrar um aniversário com o seu Pet

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Chegada Triunfal

  • Leve seu querido vira-latas caramelo.

  •       Se enfrentar olhares críticos, aquela sua camisa de ONG protetora de animais pode ajudar.

  •        Não se preocupe com o presente pet chic. Enfim, o caramelo não é ator de comerciais de TV, cão guia, mister universo ou cão farejador. Vão entender.

O que comer?

  •      Jamais diga: outro dia, fui ao festival anual de carne de cachorro da cidade chinesa de Yulin e comi um bom churrasco malpassado com cebola. Viagem fantástica! 
  •        Imaginando que alguns dos pet-friendly´s são vegetarianos (haja rissole de milho), diga para o garçom trazer os salgadinhos de carne (MUITO melhores) para você e seu pet.
  •         Pode desdenhar da qualidade da carne, dizendo ser de gato ou de cachorro. Ou de segunda categoria, porque, como tutor de um pet, fingir uma vozinha de sapo- cururu, cachorro, gato, galinha, porco, lagartixa e demais pet´s trará respeito e empatia diante dos outros tutores. Sem problemas. Pode reclamar.
  •         Como há um bolo para o pet e outro dos tutores, não tenha cerimônia: vá direto na cozinha ou mesa e peça primeiro que sirvam o dos tutores.
  •         Ao receber olhares de reprovação, diga que o pet está com problemas intestinais e indisposto. Por isso, você tem de comer mais cedo - é claro que os outros tutores e pet-friendly´s não irão se importar com sua suposta prioridade adquirida -.  

O que beber?

  •       Fuja das cervejas de pets, porque são sem álcool. Porém, se não tiver outra, tome-a e exija só se for com duplo malte. E reclame se estiver quente.

Quais os horários?

  •       Caso o convite tenha como início dezenove horas, não se acanhe em chegar mais cedo para ir comendo ou bebendo primeiro, especialmente, porque foi seu pet faminto que o carregou antes de todos pelo cheiro do salgadinho de carne, não é?
  •         Quanto a saída, não se envergonhe em sair mais cedo e sozinho se estiver de barriga cheia, e justifique deixar o pet por causa do risco concreto de atropelamento junto a um bebum pet- friendly. Os outros tutores pensarão na segurança do animal.
  •        Por isso, são chamados de pet – friendly´s, claro.   

 (*) cronista e contista.

 

 


quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Curva do Diabo


 

Curva do Diabo

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

A chave girou e acelerei, enquanto meu braço esquerdo, balançando para fora, ondulava ao sopro da estrada. O cheiro de terra molhada depois de vários meses de seca na peculiar Caatinga invadiu o carro, marcando sua bem-vinda presença. 

 

O para-brisas filmou várias placas: Volta da Jurema, Da Raposa, Curva da Saudade e Curva das Escolhas. Nomes impressos na minha cabeça.

 

Estrada adentro, deparei-me com um quebra-molas: blasfemei do engenheiro cujo objetivo principal foi reduzir o vento fresco vindo da janela.

 

Sacanagem! Vou ter que engatar outra vez a primeira marcha, pensei em voz alta.

 

Numa parada rústica no meio do nada, estava a jovem mulher com aquele vestido desenvergonhado e vermelho. E como uma cereja, aquela boca carnuda e pequena, - o que a apelidei afetuosamente de boca de ilhós.

 

Seria eu o amante acidental?

 

Mandou-me beijos. Acelerei deixando uma nuvem de poeira rubra para trás.

 

Passei por postos de gasolina, com seus cafés recém-coados, bolos de caroços e de pubas.

 

Um carro à beira da via com um capô aberto, galhos-quebrados e um enigma. Parar e ajudar o próximo, ou seguir viagem?

 

Uma depressão e outras. Altos e baixos.

 

Desacelerando e acelerando, ultrapassei com cuidado um caminhão cheio de cores e faixas vibrantes alertando do perigo: - mantenha à distância, carga inflamável.

 

Sensores de velocidade se erguiam como sentinelas no meu do horizonte, juízes avaliando cada movimento meu. Frustrante reduzir para os oitenta quilômetros por hora!

 

Do para-brisas, a estrada se desenrolava. Do retrovisor, com a poeira, ela fugiu de mim.

 

Início e fim, partida e chegada, como numa viagem, todos passam a existir com aquela corrida frenética dos espermatozoides, acelerados. E a morte, como o fim da linha, freando.

Com os anos, peguei o volante, definindo com consciência, ou não, o percurso a ser trilhado.

 

Poderia pegar um caminho reto, com a velocidade permitida, ou um tortuoso e cheio de obstáculos, como aqueles aventureiros.

 

Os que buscam adrenalina, vivem como se fosse o último. Carpe Diem, ora!

 

Então, acelerei passando do limite o meu Volks 1978 e o carrinho perdeu o rumo na Curva do Diabo. E, num segundo, estávamos de ponta cabeça dentro de uma ribanceira na beira da estrada. O mundo de pernas para o ar, com fraturas e fissuras.

 

Fui resgatado pelo SAMU, mas melhor sorte não teve meu amigo, pois o guincho o sepultou num ferro-velho. Nunca mais voltou do cemitério.

 

 (*) cronista e contista.