Caçando Pedrinho
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
E era onça mesmo!
Com isso, inicia-se a saga de Pedrinho e sua turma, no Sítio do
Picapau Amarelo, de Lobato, preparando-se para a arriscada aventura de
enfrentar a famosa e terrível onça da Toca Fria, em Caçadas de Pedrinho.
A sequência é violenta, com tiros de canhão, facas e coronhadas.
Nos últimos momentos do animal, assim atacada de todos os lados, a onça não
teve remédio senão morrer. Estrebuchou e foi morrendo. Quando deu o último
suspiro, Pedrinho, no maior entusiasmo de sua vida, entoou um canto de guerra:
- Ale guá, guá, guá...
Hoje, vejo a narrativa com um tiquinho a mais de maturidade.
Afinal, é uma obra de 1933. E a selvajaria ainda é própria dos humanos.
No entanto, há um fetiche em cravar as garras na obra de Lobato, sob a batuta da onipresente,
e radical patrulha do cancelamento.
São sentimentais (ou afoitos ao julgar), e colocam o Sítio na mira
das teclas e críticas.
Caçam as palavras politicamente incorretas ou ofensivas - e
conseguem, às vezes, fazer com que editoras cortem trechos devido à pressão
econômica.
Como bisbilhoteiro que sou, descobri que há sessenta e cinco
palavras relacionadas a caça, caçadas, caçadores e setenta menções a onças em
Caçadas de Pedrinho.
Em seguida, imaginei o título da obra sendo abatido pelo safári
digital, transformando-se em “(Caçadas) de Pedrinho”, tachado.
Acaso, se houvesse a revisão da obra, cortando-se só essas
palavras, jamais liberariam a tal caçada do infrator Pedrinho, dando-lhe, de
brinde, um belo sermão e conduzindo todos ao delegado.
Não seria incrível criar uma Delegacia de Censura de Diversões
Públicas na Internet (DCPI), seguindo-se com o parecer: “O presente livro,
retrata maus-tratos contra uma onça indefesa, cometidos por crianças, em um
livro infantil, com linguagem bastante antiecológica e cruel para o século XXI.
Portanto, ao nosso ver, opinamos pela Não Liberação”.
Felizmente, mesmo com risco de Lobato, Pedrinho e sua turma serem
caçados e cancelados, não considero ofensivo para as crianças lerem o texto
original. Isso porque a formação de um bom leitor crítico requer a premissa de
não aceitar tudo que lê.
Quando criança, assisti a muitos episódios do Sítio e, mesmo
assim, não me tornei um exímio caçador de onças ou especialista no ramo de
safáris.
Aliás, não sou de gabolices. E o mais próximo que chego de ser um
bom caçador é atirar com espingarda de chumbinho em circos, abatendo
bombons e chocolates.
Ah, como amaria que Emília, com seu pó de pirlimpimpim, me
transportasse para o Sítio do Picapau Amarelo original, me livrando desta
tediosa e cruel expedição de caça.
E era Pedrinho mesmo!
(*) cronista e contista.

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