sábado, 5 de abril de 2025

Voe, Canarinho


 

Voe, Canarinho 

Por Fabrício Carvalho Amorim Leite

Tenho quase certeza de que já escrevi sobre o meu bendito muro — ou pelo menos tentei escrever e esqueci de começar — algo sobre ele, em minha breve e errante passagem como cronista de objetos cotidianos.

Uma pessoa normal — ou apenas tida como convencional — talvez nem se perguntasse sobre um objeto tão comum, tão medíocre.

Mas o olhar desse muro me incomoda profundamente.

É o grande muro que faz divisa perpétua com o meu vizinho.

Monótono. Monocromático. Mudo.

Um muro frio, impávido, amarelo desbotado.

Bem que pesquisei na internet — e, até agora, não encontrei uma parede sinceramente contente. Há as tentativas: umas pintadas com grafites, outras cobertas de murais ou flores falsas ... mas o meu muro, não.

Voltemos a ele.

Eu, atrás da janela com grades.

Ele, sempre de pé.

Todos os dias.

Se há algum alento nessa paisagem, ele vem de cima.

No galho mais alto da palmeira imperial do vizinho, avisto ele — o canarinho-da-terra — confundindo-se com a alvorada no seu canto suave:

“Tsip, tsi-tit, tsi, tsiti, tsi, tsi, tsiti. ”

Tenho-o observado desde as primeiras chuvas de dezembro. Naqueles dias, ele flertava com entusiasmo.

Exibia os penachos dourados, inflava o peito, soltava um canto que misturava alegria. E estava sempre rodeando várias louras.

Porque é livre. Livre de mim, do muro, do mundo.

Outro dia, uma filha de uma amiga — vinda do Canadá — mirou o meu muro com aqueles olhos que ainda sabem perguntar e tascou:

— Mãe, por que neste lugar tem tantas prisões?

Eu e a mãe desconversamos. O silêncio nos foi mais doce que a resposta.

Depois, vieram as minhas sandices. Imaginei, um dia, oferecer alpiste ou pedacinhos de pão ao canarinho. Talvez um gesto de carinho disfarçado da velha vontade de possuir um pouco dele.

Deixei a ideia.

Mas o amarelinho, certo dia, me visitou.

Pousou no muro como quem pisa em algodão. Pus os óculos e vi o que antes era apenas movimento no ar: a esposa elegante, os filhotes cambaleantes, a família inteira saltando sobre o muro.

Ziguezagueavam como quem brincam de errar o voo. Um dos pequenos, no entusiasmo, esbarrou a penugem amarronzada na cerca elétrica e quase deu de cara com a parede da casa.

Vieram todos. Como se soubessem que, naquele momento, lhes cabia a tarefa de alegrar um outro passarinho preso — o que está dentro do muro.

Recebi aquela família com um sorriso amarelo. 

Ele me observou. Juro: havia dó nos seus olhinhos.

Então partiram. Voaram para longe. Sumiram na copa da palmeira imperial do vizinho.

E eu fiquei.

Janela.

Muro.

Silêncio.

Voe, canarinho. E volte, se quiser.

Tu que levas e trazes, sempre, um pedaço de mim.

 

                                                                                                                                                         Abril, 2025

 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Sarça ardente

 

Sarça ardente

Fabrício Carvalho Amorim Leite*

Nestes dias, coube-me, pela ordem natural das cousas, a tarefa de preparar os objetos deixados por meu pai – um gesto que, dizem, marca o verdadeiro amadurecimento do homem: encarar, de frente, a morte do próprio pai.

Um inventário dos momentos deixados: aquele número de telefone era ele por décadas – todas as noites, falávamos. O jeito de sentar-se na velha cadeira desbotada, sempre a predileta, era inconfundível. A xícara de café com que ele me servia ainda estava lá, junto às inseparáveis boinas. Cada objeto, agora órfão, parecia aguardar um novo destino.

O luto é estranho: silencia o mundo, mas não aquieta as perguntas. Na quietude daquela casa, compreendi que os objetos são fragmentos da personalidade dos que se foram – pedaços deixados como testemunhas de uma ausência.

O que fazer com os sapatos que ele tanto gostava, seus discos, as fotos escondidas no fundo do armário? A culpa sussurrante insistia e assistia, penosa, enquanto encaixava os objetos, sentindo que, a cada gesto, apagava partes dele. E o silêncio? Apenas cúmplice do luto, pesou mais que a ausência. Aquela mania de criança de revirar as coisas perdeu, ali, sua graça.

Na missa, encontrei um breve consolo do peso das coisas deixadas. O turíbulo balançava suavemente, espalhando o aroma do incenso, enquanto as palavras do padre ecoavam: “Não ajunteis tesouros na terra”. Perdi o olhar no fogo que brincava no turíbulo, e uma prece, sem aviso, escapou: Afaste-se, saudade, sarça ardente, fogo que nunca se apaga. Mas, ao sair, o vazio ainda se agarrava a mim, como uma sombra que não se deixa abandonar.

Ao cruzar a velha casa, aquele alívio efêmero dissolveu-se, como se a saudade encontrasse seu lugar entre os cômodos vazios. O Nada ainda me buscava. Na sala, despojada de móveis, permaneciam os vestígios de uma história partida.

O sol atravessava as janelas descortinadas, despejando luz sobre telas, ornamentos e fotografias empilhadas às pressas, como se tentassem disfarçar a coisa nenhuma que tudo comia.

Meu maior temor era que o meu pai se apagasse da memória, submerso no passado e deixando o presente desfigurado. Besteira! Como quem se agarra a uma âncora, apanhei um retrato – aquele instante para sempre alegre. O resto... foi confiado ao mundo.

Sarça ardente, ardente... ardente.

(*) contista e cronista.

 


domingo, 9 de junho de 2024

Invisíveis

 



Invisíveis

 

Casa grande, família à maneira colonial, lá seguia a patroa Leopoldina, com uma pequena escanchada no pescoço e outra prestes a nascer. Chegava e ia direto encontrar Isaura, minha amiga educada e econômica nas palavras, sempre em seu porão.

 

Na infância, enquanto descobríamos o mundo da cozinha e da despensa, acompanhados de cafunés, afagos e beijos, Isaura já vivia em esgotamento. Mesmo com as juntas ainda jovens, lavava e enxaguava muitas roupas por dia. Agora, anos depois, Isaura estava avoada, ofegante, e puída — a velha ampulheta lembrava seu cansaço.

 

Carteira assinada? Folgas? Nem pensar. E diziam que jamais foi bulida nesta vida do Nosso Senhor. Sobrevivia num quase certo regime monástico, sem documentos e praticamente inexistente para o mundo real.

 

“Leopoldina, alivia o trabalho da velha criada, o mundo já foi muito exigente com ela. Há outras bem mais preparadas para isso,” dizia o Dr. Bustamante, seu rico marido e cúmplice, tentando soar compreensivo. Homem prático e direto, com uma dramaturgia oportunista. Sua voz era baixa e mansa, como querendo disfarçar a invisibilidade imposta a Isaura.

 

Observei Dr. Bustamante pegar uma pilha de roupas e começar a lavar como minha mãe fazia e como vovó ainda faz, aos seus oitenta anos. Meus pensamentos dúbios surgiram; era difícil não ver hipocrisia. Enquanto isso, Dona Leopoldina, alheia à cena, começou a olhar os anúncios da internet, como sempre fazia, consentindo silenciosamente a hipocrisia.

 

Voltei para casa refletindo como, na invisibilidade, uma certa ordem parecia ser trazida ao curso natural das coisas.

 

Na última visita, corri para ter com a amiga de infância. Olhei ao redor, mas só vi uma estranha. Ela aparentava ser contemporânea e autônoma, sem noção das penúrias da serva anterior. Seus direitos trabalhistas estavam estampados no rosto — que ironia! Será que Isaura havia sido trocada por alguém mais visível?

 

Descobri então que Isaura tinha sido despedida sem aviso. Ao ver o seu porão vazio, padeci de um sentimento de culpa. Porque não defendi Isaura, que sempre esteve visível para mim, mas parecia invisível para o resto mundo?    

 

E, assim, inspirado por Graciliano Ramos sobre a arte das lavadeiras “Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja, torcem o pano, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes”, através da escrita, prometi tornar visíveis os invisíveis.

 

 

 

 


segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

De (pé) perto, ninguém é normal.

 

                                Foto: https://www.instagram.com/brunodpalmeida/

De (pé) perto, ninguém é normal.

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

        Encontrei um velho amigo no shopping. Há anos, a vida nos jogou para lados diferentes. Eu me tornei um convencional gravatadinho, enquanto ele, o Heli, para minha surpresa, havia se transformado em influencer descolado, com um ótimo gogó e persuasivo, daqueles com milhares de seguidores.

           Ao ver Heli, de imediato me lembrei do lance no parque. Heliogábalo, cujo nome por si só evoca muitos brios, era o mais franzino de nossa escola.

        Por isso, como uma cadeia alimentar, atraía a atenção de um valentão que o perseguia sem trégua. Num dia (quase) trivial, o bambambã, cujo nome omitirei para não lhe dar cartaz, gritou:

            - “Fale em voz alta, Heliogábalo, paralelepípedo! ”.

       Pobre Heli, que, por medo, correu como uma gazela fugindo de um predador, perdendo seus óculos novinhos e encontrando abrigo no escuro túnel do escorrega-bunda, onde chorou até o final das aulas. 

          O cerco revelou a todos a hipopotomonstrosesquipedaliofobia de Heli – o irônico termo médico para o medo de palavras longas e difíceis. Esse foi o motivo do meu espanto com a radical transformação do amigo.

     A cena confirmou a minha suspeita de que todos nós temos pequenas “anormalidades”, obsessões ou medos. Por exemplo, até o meu gato Tigrão mostra sua birutice em nunca se alimentar na tigela, preferindo espalhar ração na terra antes de comê-la.

 “Quem te ensinou esses modos, Tigrão? ”. Sempre pergunto, ousando decifrar os enigmas do subconsciente felino, apesar de sua pose de esfinge.

 Não são apenas os humanos e gatos que têm suas esquisitices. Um pombo achou legal escolher que meu carro seria seu alvo, bombardeando-o todo o dia com a precisão de um caça F-35. 

Outro amigo, talvez um CEO sobrecarregado, limita sua presença em qualquer atividade a exatos trinta minutos - como se um segundo a mais significasse um assalto a seu precioso tempo. E, talvez, até busque um dia a onipresença divina.

E há aqueles que, com a pandemia, foram contaminados por um medo quase cômico de maçanetas de banheiros, tornando engraçada a situação de entrarem nos banheiros, trancarem a porta, mas não conseguirem sair...

          Neste momento, eu mesmo, curtindo os efeitos de uma psicose crônica, rabisco com rapidez uma lista megalomaníaca de manias e fobias de todos os que cruzam o meu caminho, imaginando-me um cronista das doidices dos humanos ou não humanos.

Assim, aqui estou eu, de pé em frente do espelho: “Caramba, vou adiar novamente a lista completa das manias e fobias”, - uma loucura (de escrever em pé) à Ernest Hemingway.

 Melhor deixar para lá. 

Afinal, de (pé) perto, ninguém é normal.

 

(*) cronista e contista.

 

 


sábado, 23 de dezembro de 2023

Eram os olhos



 

Eram os olhos

1958,
numa madrugada de janeiro,
os céus asteriscaram o chão
com duas gotas e meia
(a outra meia-gota secou-se antes de cair).

O pai dela abriu a janela,
os céus –
e recuou um pouquinho.

O cachorro levantou-se e donde se levantou
não levantou
molhado algum, apenas a cinza seca
alevantou-se no ar,
e mais
não choveu.

[Por todo o ano,
o ano inteiro.]

Inicialmente todos os verdes,
em seguida os amarelos,
depois os ressecos e os restolhos;
finalmente, os mandacarus, as mucunãs e o espinho.
Mais o sol e a ventania.

Minha mãe mandou-lhes dizer:
“Separem,
separem o de-beber,
separem o de-comer”.

Acabara-se a última lata de gordura de porco.
Chegara a tosse ao pai.

E os olhos toldados:
[éramos bem jovens].

Era Ela.
[…]
Os olhos.

Bela poesia de Soares Feitosa (http://www.jornaldepoesia.jor.br/poetica-olhos.html)

segunda-feira, 18 de dezembro de 2023

Por favor, entre, Menino Jesus.



 

Por favor, entre, Menino Jesus.


*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Dizem que Freud, no “Além do Princípio do Prazer”, apresentou um conceito intrigante, embora o tenha chamado de especulativo, quando pensou sobre a inclinação na natureza de retornar ao seu estado original.

 

Uma compulsão de cada minúscula célula para reverter ao plano inanimado, um estado anterior à perturbação que originou a vida. Numa tensão que nos levaria a um relacionamento com a morte.

 

A morte nos atrai e nos afasta simultaneamente, e é sobre ela e sobre aqueles que ainda irão atravessar para a outra margem do rio que vamos falar. A morte de alguém próximo, que por mistério, ainda não morreu.

 

Com relativa lucidez, é difícil aceitá-la, mesmo que o Livro Sagrado, também, nos ensine "Do pó viemos, ao pó voltaremos".

 

Por que retornar ao pó tão cedo? Imaginemos um irmão jovem e carinhoso, vivendo na mesma vizinhança, rua ou bairro. As incessantes procissões da casa ao hospital, e do hospital à casa, chegarão ao fim devido à doença terminal.

 

Além da tensão celular, existe igualmente a das memórias e espírito (ou alma), essa parte intangível e invisível que pode se expressar, desvanecer ou transcender para outro plano. O cheiro bom de passado, cheiro de irmão, entrelaçando-se em nossas memórias.

 

Sente-se o luto antes do início do definhamento. Este luto já se manifesta na inquietação causada pela perda de nossas lembranças comuns deslembradas.

 

Você se recorda daquele dia com o estilingue? Você o esqueceu na floresta e ainda hoje rimos dessa lembrança. São memórias siamesas que, ao se afastarem, levam consigo um pedaço de nós.

 

A palavra “partir” ameniza a realidade, transpondo-nos para lugares poéticos como Pasárgada, Valhalla, Zanzibar, o Jardim do Éden, ou até mesmo a infância fraterna, como um simples regresso.

 

Alguém poderia afirmar: "Infelizmente, ele partiu num minuto devido a um infarto, e não sofreu". Essa é uma concepção que alguns indivíduos, inclusive a ciência, podem compartilhar. No entanto (e acrescento que sempre existe um "porém"), questionamos se houve tempo suficiente para despedidas ou pedidos de perdão.

 

Justa ou não, ela chegará, e nossas ações (ou omissões) serão lembradas, seja no breve velório, num texto, nos anos futuros, décadas, milênios, ou na eternidade, como anunciado pelo Cristo.

 

Sentado no banco da igreja, busco um milagre. Porquê? Porque a ciência é incapaz de iluminar tudo. Mas, já conhece a força da fé na cura, ainda bem.

 

O tranquilo padre continua misterioso e mudo na liturgia. É uma época de silêncio.

 

Dirijo-me de joelhos ao Cordeiro de Deus e suplico em silêncio: "Menino Jesus, por gentileza, visite o lar dos enfermos e traga-lhes luz.".

 

Feliz e Iluminado Natal.

 

(*) cronista e contista.

  

quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Admirável mundo dos palavrões e calões



 

Admirável mundo dos palavrões e calões

Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Avisa-se, leitor sensível, que a crônica adiante inclui palavras depravadas e pecaminosas (sobretudo para os falsos moralistas); insultuosas, perversas e da mais alta maldade e periculosidade. E, pede-se às crianças que saiam do ambiente.

De fato, minha introdução ao sedutor universo dos palavrões e calões ocorreu na infância, com o tio Xixita. Este, no conforto de um Chevrolet Caravam, acionava a buzina ao menor sinal de barbeiragem dos outros motoristas. Em seguida, um p*ta que o pariu, vai à m*rd*, burro, jumento, t*b*cudo ou xibungo, demostravam, assim, a sua notável erudição.

Infelizmente, com a chegada do ar-condicionado veicular, tio Xixita perdeu o posto de xingador mor e de alto escalão da família. E o Caravam foi para o cemitério dos car*lhambeques. 

Vejam bem, os xingamentos dele não desaparecerem. Foi por culpa do abafamento do som, trazido pelos vidros elétricos das janelas dos carros, o querido Titio Xixita perdeu o portentoso título.

Agora, tudo que lhe resta é arregaçar as mangas com punhos cerrados, mostrar a língua para aumentar a f*leragem e, tal como um mestre no ofício, exibir o torto dedo médio aos coleguinhas motoristas. Isso, sem bofetadas, claro.

Para mim, o titio foi um visionário, espécie de Henry Ford dos calões, com colhões e muitos cabelos na venta (que é sinal de cabra macho e brabo), daqueles que, mesmo a ferro e fogo, venceram o fodástico mundo das aparências e convenções.

Do seu jeito, extravasava os seus inventivos sentimentos, já que, antes da terapia dos calões automobilísticos, era um sujeito que sempre estava em apuros e partia logo para a porrada.

E, pelo visto, titio deixou discípulos na família. Já que apreendi muito com o professor, tão e tanto que, num dia desses, ao topar numa pedra, soltei logo um f*d*-s*, f*o da égua e c*ralhos o f*dam!

Desgraçada pedra que me lascou o dedão do pé direito. Fiquei furibundo, de nariz torcido (e dedão também), como um cão raivoso (palavrõezitos).

Mesmo assim, quando o dedão ficou melhor, fui ligeiro andar a coçar o c* pelas esquinas, fazer cera, versos à Lua, andar a flaino, a preguiçar e a mandriar no boteco até entornar o caneco...

 (*) cronista e contista.

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Reconciliação

 


                                                                  Fonte: Google


Reconciliação 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite  

 

Ah, Teresa Cristina, como poderia esquecer nossos primeiros dias? Aqueles quarenta graus ainda seguem. Nada além de nós importava; a juventude e os hormônios nos levavam em passo acelerado ao clímax.

 

Aliás, aprendi que o envelhecer traz mudanças na tolerância ao nosso ambiente. Sabe, não pudemos evitar o ciclo marcado por nossos lagos secando, ipês-amarelos floridos, agora murchos, e jardins que se tornaram cinzas.

  

Os passeios ao ar livre perderam o encanto. Nossa relação se tornou árida. 

 

Lembro-me daquele primeiro beijo no banco da praça Pedro II, com o antigo e fresco pôr do sol conosco brincando num tempo perdido.  

 

E os passeios coladinhos? Só nos raros dias amenos, pois os quase cinquenta anos afetaram o meu vigor. 

 

Você, porém, continua espantosamente fogosa, ardente e uma Capitu moderna, não é?  

 

Sim, por causa do nosso desgaste, cheguei a cogitar nunca mais te ver.  Eu sei que suspeitava do motivo...  

 

Ela, aquela Pessoa que não é pessoa, moradora juntinha da Serra da Borborema, uma embaixatriz do arrasta-pé e natural da terra dos Suassunas. O antigo chamego dos passeios da juventude.

 

Nos sonhos, tentava em vão abafar o nome dela, cuja beleza me atraía para a beira do Atlântico morno e azul.  

 

É mais velha, amena, ótima em cuidar da pele que eu habito e conservada como uma brisa leve e molhada.   

 

Afinal, não aguentei, fui um covarde, e bem sabe onde eu estava...  

Seus cartões postais que me enviou? Não preenchiam a saudade, ainda que nos braços da outra.

 

No fim, são dois amores que vivem em mim: João Pessoa, na Paraíba, antigo affaire, e você, Teresina, no Piauí, nome em tributo à imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon.  

 

 (*) cronista e contista.