sábado, 23 de dezembro de 2023

Eram os olhos



 

Eram os olhos

1958,
numa madrugada de janeiro,
os céus asteriscaram o chão
com duas gotas e meia
(a outra meia-gota secou-se antes de cair).

O pai dela abriu a janela,
os céus –
e recuou um pouquinho.

O cachorro levantou-se e donde se levantou
não levantou
molhado algum, apenas a cinza seca
alevantou-se no ar,
e mais
não choveu.

[Por todo o ano,
o ano inteiro.]

Inicialmente todos os verdes,
em seguida os amarelos,
depois os ressecos e os restolhos;
finalmente, os mandacarus, as mucunãs e o espinho.
Mais o sol e a ventania.

Minha mãe mandou-lhes dizer:
“Separem,
separem o de-beber,
separem o de-comer”.

Acabara-se a última lata de gordura de porco.
Chegara a tosse ao pai.

E os olhos toldados:
[éramos bem jovens].

Era Ela.
[…]
Os olhos.

Bela poesia de Soares Feitosa (http://www.jornaldepoesia.jor.br/poetica-olhos.html)

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