Eram os olhos
1958,
numa madrugada de janeiro,
os céus asteriscaram o chão
com duas gotas e meia
(a outra meia-gota secou-se antes de cair).
O pai dela abriu a janela,
os céus –
e recuou um pouquinho.
O cachorro levantou-se e donde se
levantou
não levantou
molhado algum, apenas a cinza seca
alevantou-se no ar,
e mais
não choveu.
[Por todo o ano,
o ano inteiro.]
Inicialmente todos os verdes,
em seguida os amarelos,
depois os ressecos e os restolhos;
finalmente, os mandacarus, as mucunãs e o espinho.
Mais o sol e a ventania.
Minha mãe mandou-lhes dizer:
“Separem,
separem o de-beber,
separem o de-comer”.
Acabara-se a última lata de gordura de
porco.
Chegara a tosse ao pai.
E os olhos toldados:
[éramos bem jovens].
Era Ela.
[…]
Os olhos.
Bela poesia de Soares Feitosa
(http://www.jornaldepoesia.jor.br/poetica-olhos.html)


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