Foto: https://www.instagram.com/brunodpalmeida/
De (pé)
perto, ninguém é normal.
*Fabrício
Carvalho Amorim Leite
Encontrei um velho amigo no shopping. Há anos, a vida nos jogou
para lados diferentes. Eu me tornei um convencional gravatadinho, enquanto ele,
o Heli, para minha surpresa, havia se transformado em influencer descolado, com
um ótimo gogó e persuasivo, daqueles com milhares de seguidores.
Ao ver Heli, de imediato me lembrei do lance no parque.
Heliogábalo, cujo nome por si só evoca muitos brios, era o mais franzino de
nossa escola.
Por isso, como uma cadeia alimentar, atraía a atenção de um
valentão que o perseguia sem trégua. Num dia (quase) trivial, o bambambã, cujo nome omitirei para não lhe dar cartaz, gritou:
- “Fale em voz alta, Heliogábalo, paralelepípedo! ”.
Pobre Heli, que, por medo, correu como uma gazela fugindo de um
predador, perdendo seus óculos novinhos e encontrando abrigo no escuro túnel do
escorrega-bunda, onde chorou até o final das aulas.
O cerco revelou a todos a hipopotomonstrosesquipedaliofobia de
Heli – o irônico termo médico para o medo de palavras longas e difíceis. Esse
foi o motivo do meu espanto com a radical transformação do amigo.
A cena confirmou a minha suspeita de que todos nós temos
pequenas “anormalidades”, obsessões ou medos. Por
exemplo, até o meu gato Tigrão mostra sua birutice em nunca se alimentar
na tigela, preferindo espalhar ração na terra antes de comê-la.
“Quem
te ensinou esses modos, Tigrão? ”. Sempre pergunto, ousando decifrar os enigmas
do subconsciente felino, apesar de sua pose de esfinge.
Não são
apenas os humanos e gatos que têm suas esquisitices. Um pombo achou legal
escolher que meu carro seria seu alvo, bombardeando-o todo o dia com a precisão
de um caça F-35.
Outro
amigo, talvez um CEO sobrecarregado, limita sua presença em qualquer atividade
a exatos trinta minutos - como se um segundo a mais significasse um assalto a
seu precioso tempo. E, talvez, até busque um dia a onipresença divina.
E há
aqueles que, com a pandemia, foram contaminados por um medo quase cômico de
maçanetas de banheiros, tornando engraçada a situação de entrarem nos
banheiros, trancarem a porta, mas não conseguirem sair...
Neste momento, eu mesmo, curtindo os efeitos de uma psicose
crônica, rabisco com rapidez uma lista megalomaníaca de manias e fobias de todos
os que cruzam o meu caminho, imaginando-me um cronista das doidices dos humanos
ou não humanos.
Assim, aqui
estou eu, de pé em frente do espelho: “Caramba, vou adiar novamente a lista
completa das manias e fobias”, - uma loucura
(de escrever em pé) à Ernest Hemingway.
Melhor deixar para lá.
Afinal, de (pé) perto, ninguém é normal.
(*)
cronista e contista.

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