Invisíveis
Casa grande, família à
maneira colonial, lá seguia a patroa Leopoldina, com uma pequena escanchada no
pescoço e outra prestes a nascer. Chegava e ia direto encontrar Isaura, minha
amiga educada e econômica nas palavras, sempre em seu porão.
Na infância, enquanto
descobríamos o mundo da cozinha e da despensa, acompanhados de cafunés, afagos
e beijos, Isaura já vivia em esgotamento. Mesmo com as juntas ainda jovens,
lavava e enxaguava muitas roupas por dia. Agora, anos depois, Isaura estava
avoada, ofegante, e puída — a velha ampulheta lembrava seu cansaço.
Carteira assinada? Folgas?
Nem pensar. E diziam que jamais foi bulida nesta vida do Nosso Senhor.
Sobrevivia num quase certo regime monástico, sem documentos e praticamente
inexistente para o mundo real.
“Leopoldina, alivia o
trabalho da velha criada, o mundo já foi muito exigente com ela. Há outras bem
mais preparadas para isso,” dizia o Dr. Bustamante, seu rico marido e cúmplice,
tentando soar compreensivo. Homem prático e direto, com uma dramaturgia
oportunista. Sua voz era baixa e mansa, como querendo disfarçar a
invisibilidade imposta a Isaura.
Observei Dr. Bustamante
pegar uma pilha de roupas e começar a lavar como minha mãe fazia e como vovó ainda
faz, aos seus oitenta anos. Meus pensamentos dúbios surgiram; era difícil não
ver hipocrisia. Enquanto isso, Dona Leopoldina, alheia à cena, começou a olhar
os anúncios da internet, como sempre fazia, consentindo silenciosamente a
hipocrisia.
Voltei para casa refletindo
como, na invisibilidade, uma certa ordem parecia ser trazida ao curso natural
das coisas.
Na última visita, corri para
ter com a amiga de infância. Olhei ao redor, mas só vi uma estranha. Ela
aparentava ser contemporânea e autônoma, sem noção das penúrias da serva
anterior. Seus direitos trabalhistas estavam estampados no rosto — que ironia! Será que Isaura havia sido
trocada por alguém mais visível?
Descobri então que Isaura
tinha sido despedida sem aviso. Ao ver o seu porão vazio, padeci de um
sentimento de culpa. Porque não defendi Isaura, que sempre esteve visível para
mim, mas parecia invisível para o resto mundo?
E, assim, inspirado
por Graciliano Ramos sobre a arte das lavadeiras “Elas começam com uma primeira
lavada, molham a roupa suja, torcem o pano, voltam a torcer. Colocam o anil,
ensaboam e torcem uma, duas vezes”, através da escrita, prometi tornar visíveis
os invisíveis.

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