Amiga goiabeira:
a minha cápsula do tempo
A goiabeira
de minha infância vive profundamente enraizada nas minhas lembranças, uma perfeita
cápsula do tempo. Na época, sua copa me fornecia beleza, carinho e uma inocente
rebeldia infantil sob um céu colorido de arco-íris.
Porque adotei
a goiabeira, interrogo-me até hoje. Havia outras árvores mais elegantes e com
troncos mais belos, como uma requintada mangueira e uma pitangueira. Com
certeza, a goiabeira, por ser novinha, tenha crescido e descoberto o mundo comigo,
como um jovem cavalheiro a montar o seu primeiro cavalo pelas vastas pradarias.
A jovem árvore dizia: “Monte no meu galho”.
Era uma ordem. E, em agradecimento, balançava-me com os olhos fechados,
sentindo-me um cavaleiro medieval. Com o caminhar do tempo, seu tronco
tornou-se mais escorregadio, mas a astúcia da juventude me ensinou a
conquistá-la. Eu retirava às alpargatas, estendia o braço fino em direção ao
primeiro galho seguro e com um impulso, vencia a gravidade, escalando a minha
verde fortaleza.
“Bom dia”, dizia
a minha amiga. Em sequência, colocava um dos ouvidos no seu tronco e escutava
seu grande fluxo de seiva a alimentá-la. Devia ser o seu café da manhã,
imaginava.
Julho era
especial, marcado por causa das férias escolares e pela valsa das folhas secas
caídas. Tentava contar o número de folhas no chão, um jogo de sonho infantil.
Em seguida, brotos
verdes surgiam ao cântico agitado dos acordes dos violinos naturais das
cigarras machos, desesperados em seu ritual caótico de acasalamento. Zii, Zii,
Zii!
Do alto, o
mundo parecia menor, até a enorme casa do meu avô com suas telhas rosadas.
Através da copa, via além dos muros do quintal, igualando-me à altura do prédio
vizinho. Imaginava o rosto de alguém aparecendo nas suas janelas, fantasiando
ser um curioso ou uma admiradora juvenil.
No mundo do
chão, estavam vários primos e outros garotos em suas brincadeiras, presos em
seus temores de altura, mas o meu reino estava acima deles, entre os galhos,
folhas, frutos e animais da minha goiabeira.
Do mirante
verde, o panorama sempre percorria o velho e assustador poço, um abismo úmido
que guardava um cágado solitário. A possibilidade de sua morte passar desapercebida,
revelada se apenas a água ficasse podre, inoculava na minha mente um misto de
medo e compaixão.
“Amiga goiabeira,
jamais me deixe cair naquele abismo escuro de desesperança”, sussurrava nos
ouvidos dela.
No quintal,
havia, também, uma oficina de bicicletas. De cima, observava as magrelas
chegando destroçadas e renasciam brilhantes sob o cuidado do Senhor Zezé, o
cura de bicicletas, um adulto com radiante sorriso de criança.
Na rotina,
escutava lá de cima o leiteiro, anunciando: “Olha o leite fresco e natural! ”.
E tinha o Totoca, o vendedor de quebra-queixo, cujos doces eram disputados
entre a garotada. No futuro, Totoca se tornaria prefeito, mas a minha lembrança
sempre o resgatará para o seu antigo ofício.
Quando
Totoca passava, eu descia da goiabeira com a rapidez de um camaleão e corria ao
encontro de minha avó. Seus olhos cheios de gostar encontravam os meus e,
apenas com gestos, retirava uma moeda do bolso direito.
Em seguida,
ela puxava os óculos para a ponta do nariz, e falava: “Dê um quebra-queixo para
o menino”.
Depois, com
o doce, saltitando, voltava para os ombros da amiga verde já povoada de
pipiras, periquitos e sabiás aproveitando-se de minha pequena ausência. E, só
descia quando via às primeiras estrelas cadentes.
Eu e a
goiabeira já passamos por alguns perrengues, também. Num dia, o nosso mundo
quase se desfez. A pancada forte do machado ecoou pelas frestas das telhas do
meu quarto. Rapidamente, corri com as remelas ainda nos olhos para o quintal.
Ainda de
pijamas, parei gelado há cinco metros da cena, observando aquele homem com
braços torneados e com jeito rústico cravando seu pesado e amolado machado em
minha goiabeira. Num instante, pensei que estivesse dormindo. O corte
transversal já fazia o sangue de minha amiga esguichar por seu tronco marrom.
Uma mistura
de tudo passou na minha mente: ódio,
revolta e tristeza. Já com meus doze anos, principiando os pensamentos
crescendo e crescendo rapidamente, agarrei o choro e pensei. Aproveitando um desleixo
do carrasco, subi em silêncio na árvore pelo outro lado ainda não ferido até o último galho da copa.
No cume, senti
entre minhas mãos a casca da árvore banhada da seiva sanguenta, e o jovem vento
da manhã sobre as folhas e meu rosto aflito. Tomei um fôlego extra e baixei meu
pijama, golfando o xixi sobre nosso inimigo comum. O líquido amarelado desceu
ainda quente pela cabeleireira do carrasco contratado, com a blusa branca sendo
tingida de um amarelo claro.
O algoz fez
uma breve parada, levou a mão calejada do machado ao nariz e olhou o céu
límpido, embora confuso. Mesmo assim, continuou sua missão. No entanto, foi com
a matéria marrom grudando sobre sua roupa e cabelo que sucumbiu.
Eu, lá em
cima, naquele momento, parecia um corajoso centurião romano acastelando sozinho
minha posição. E, já seguro de si, impus uma língua cumprida diretamente em
direção ao malcheiroso carrasco.
O homem,
percebendo a minha perseverança, recolheu o seu machado e se foi. Pouco após a
batalha, veio uma comitiva de diplomatas encabeçada por meu avô para combinar
os termos do armistício. Paz.
Naquele dia
senti-me um herói salvando a minha amiga. Como senti-me. E me olharam com
admiração e espanto. E, mal sabiam que a heroína da vitória era goiabeira, com
seu arsenal de goiabas vermelhas cuja mistura na minha barriga na noite
anterior fez um belo estrago no carrasco.
Hoje,
percebo que o tempo, este devorador imperturbável, digere não apenas horas, mas
também memórias. Mesmo assim, ao escrever, conseguimos recriar fragmentos do ontem,
replantando momentos. E a minha querida goiabeira ainda continua em pé e a
crescer dentro de mim, onipresente cápsula do tempo.
(*) cronista e contista.

