segunda-feira, 24 de julho de 2023

Amiga goiabeira: a minha cápsula do tempo

 


Amiga goiabeira: a minha cápsula do tempo

 

A goiabeira de minha infância vive profundamente enraizada nas minhas lembranças, uma perfeita cápsula do tempo. Na época, sua copa me fornecia beleza, carinho e uma inocente rebeldia infantil sob um céu colorido de arco-íris. 

 

Porque adotei a goiabeira, interrogo-me até hoje. Havia outras árvores mais elegantes e com troncos mais belos, como uma requintada mangueira e uma pitangueira. Com certeza, a goiabeira, por ser novinha, tenha crescido e descoberto o mundo comigo, como um jovem cavalheiro a montar o seu primeiro cavalo pelas vastas pradarias. 

 

A jovem árvore dizia: “Monte no meu galho”. Era uma ordem. E, em agradecimento, balançava-me com os olhos fechados, sentindo-me um cavaleiro medieval. Com o caminhar do tempo, seu tronco tornou-se mais escorregadio, mas a astúcia da juventude me ensinou a conquistá-la. Eu retirava às alpargatas, estendia o braço fino em direção ao primeiro galho seguro e com um impulso, vencia a gravidade, escalando a minha verde fortaleza. 

 

“Bom dia”, dizia a minha amiga. Em sequência, colocava um dos ouvidos no seu tronco e escutava seu grande fluxo de seiva a alimentá-la. Devia ser o seu café da manhã, imaginava.

 

Julho era especial, marcado por causa das férias escolares e pela valsa das folhas secas caídas. Tentava contar o número de folhas no chão, um jogo de sonho infantil.

Em seguida, brotos verdes surgiam ao cântico agitado dos acordes dos violinos naturais das cigarras machos, desesperados em seu ritual caótico de acasalamento. Zii, Zii, Zii!

 

Do alto, o mundo parecia menor, até a enorme casa do meu avô com suas telhas rosadas. Através da copa, via além dos muros do quintal, igualando-me à altura do prédio vizinho. Imaginava o rosto de alguém aparecendo nas suas janelas, fantasiando ser um curioso ou uma admiradora juvenil. 

 

No mundo do chão, estavam vários primos e outros garotos em suas brincadeiras, presos em seus temores de altura, mas o meu reino estava acima deles, entre os galhos, folhas, frutos e animais da minha goiabeira. 

 

Do mirante verde, o panorama sempre percorria o velho e assustador poço, um abismo úmido que guardava um cágado solitário. A possibilidade de sua morte passar desapercebida, revelada se apenas a água ficasse podre, inoculava na minha mente um misto de medo e compaixão. 

 

“Amiga goiabeira, jamais me deixe cair naquele abismo escuro de desesperança”, sussurrava nos ouvidos dela. 

 

No quintal, havia, também, uma oficina de bicicletas. De cima, observava as magrelas chegando destroçadas e renasciam brilhantes sob o cuidado do Senhor Zezé, o cura de bicicletas, um adulto com radiante sorriso de criança.  

 

Na rotina, escutava lá de cima o leiteiro, anunciando: “Olha o leite fresco e natural! ”. E tinha o Totoca, o vendedor de quebra-queixo, cujos doces eram disputados entre a garotada. No futuro, Totoca se tornaria prefeito, mas a minha lembrança sempre o resgatará para o seu antigo ofício. 

 

Quando Totoca passava, eu descia da goiabeira com a rapidez de um camaleão e corria ao encontro de minha avó. Seus olhos cheios de gostar encontravam os meus e, apenas com gestos, retirava uma moeda do bolso direito. 

 

Em seguida, ela puxava os óculos para a ponta do nariz, e falava: “Dê um quebra-queixo para o menino”.

 

Depois, com o doce, saltitando, voltava para os ombros da amiga verde já povoada de pipiras, periquitos e sabiás aproveitando-se de minha pequena ausência. E, só descia quando via às primeiras estrelas cadentes. 

 

Eu e a goiabeira já passamos por alguns perrengues, também. Num dia, o nosso mundo quase se desfez. A pancada forte do machado ecoou pelas frestas das telhas do meu quarto. Rapidamente, corri com as remelas ainda nos olhos para o quintal. 

 

Ainda de pijamas, parei gelado há cinco metros da cena, observando aquele homem com braços torneados e com jeito rústico cravando seu pesado e amolado machado em minha goiabeira. Num instante, pensei que estivesse dormindo. O corte transversal já fazia o sangue de minha amiga esguichar por seu tronco marrom.

 

Uma mistura de tudo passou na minha mente:  ódio, revolta e tristeza. Já com meus doze anos, principiando os pensamentos crescendo e crescendo rapidamente, agarrei o choro e pensei. Aproveitando um desleixo do carrasco, subi em silêncio na árvore pelo outro lado ainda não ferido até o último galho da copa. 

 

No cume, senti entre minhas mãos a casca da árvore banhada da seiva sanguenta, e o jovem vento da manhã sobre as folhas e meu rosto aflito. Tomei um fôlego extra e baixei meu pijama, golfando o xixi sobre nosso inimigo comum. O líquido amarelado desceu ainda quente pela cabeleireira do carrasco contratado, com a blusa branca sendo tingida de um amarelo claro.

 

O algoz fez uma breve parada, levou a mão calejada do machado ao nariz e olhou o céu límpido, embora confuso. Mesmo assim, continuou sua missão. No entanto, foi com a matéria marrom grudando sobre sua roupa e cabelo que sucumbiu. 

 

Eu, lá em cima, naquele momento, parecia um corajoso centurião romano acastelando sozinho minha posição. E, já seguro de si, impus uma língua cumprida diretamente em direção ao malcheiroso carrasco.

 

O homem, percebendo a minha perseverança, recolheu o seu machado e se foi.  Pouco após a batalha, veio uma comitiva de diplomatas encabeçada por meu avô para combinar os termos do armistício. Paz.

 

Naquele dia senti-me um herói salvando a minha amiga. Como senti-me. E me olharam com admiração e espanto. E, mal sabiam que a heroína da vitória era goiabeira, com seu arsenal de goiabas vermelhas cuja mistura na minha barriga na noite anterior fez um belo estrago no carrasco. 

 

Hoje, percebo que o tempo, este devorador imperturbável, digere não apenas horas, mas também memórias. Mesmo assim, ao escrever, conseguimos recriar fragmentos do ontem, replantando momentos. E a minha querida goiabeira ainda continua em pé e a crescer dentro de mim, onipresente cápsula do tempo.

 

 (*) cronista e contista.


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