quinta-feira, 17 de agosto de 2023

 



O último encontro com meu avô e o velho casario

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

             Numa manhã de céu limpo, estacionei em frente ao espaçoso casarão quase sexagenário. Tirei meu filho do carro, um bebê rechonchudo e sonolento, envolvido em um cobertor azul-celeste, dirigi-me à entrada. A casa seduzia meus sentidos.

 

            O terraço, nossa sala de visitas aberta para rua, onde cadeiras modestas de fitilho, amarelas, azuis e vermelhas nos acenaram a sentar. Os azulejos envelhecidos e desbotados, com cores sóbrias ainda ambicionando o peso de muitos passos.

 

            A simplicidade do lugar parecia descansar o tempo, juntando o passado e presente. E, de fato, ele parou como convidando para um solene encontro entre passado e o presente.

 

            E, lá estava ele: o meu popular e político avô.  Sentado, no mesmo local e posição em que, por inúmeras vezes, “despachava” ou promovia encontros formais e informais, com autoridades, lideranças, munícipes, empregados, eleitores, amigos, dentre outros. Realmente, ali era um dos seus lugares preferidos.

 

             De repente eu era aquele menino que observava tudo o que se passava naquele lugar com os olhinhos aguçados das aves de rapina, e até aventurando-se a dar palpites quando falavam dos bois de suas fazendas.

         

         “Quinze quilos, vô, é a arrouba”, eu ousava.

 

         “Não é que o moleque acertou! ”. Meu avô exclamou, misturando surpresa e incredulidade.

 

          Entre os presentes, estava o leal vaqueiro Ataliba, vestindo um gibão avermelhado, recém lustrado com óleo de algodão. Seu olhar boquiaberto demonstrava a surpresa com a esperteza de um menino da cidade interessando-se pelos fatos da vida do sertão de dentro.

 

          “O patrãozinho é metido a doutor”, dizia o experiente vaqueiro, rindo e mostrando uma grande cicatriz atravessando o rosto já desgastado do sol. Ele se orgulhava, em sua virilidade sertaneja, de ter duelado com onça preta, apontando a lembrança da luta.

 

            Saí orgulhoso, mesmo na base da adivinhação, mas ganhei um ponto... Ganhei. Tentava, em vão, acompanhar meu avô nas contagens dos preços das mercadorias ou somas. Notava tudo, curiosa e bisbilhoteira, como criança que fui. Sim.

 

             Foi naquele mesmo lugarzinho e momento acolhedor da memória, que brinquei, ouvi histórias aterrorizantes de lobisomem, almas e vampiros. Como fantasiava.

 

             Emocionado, abri o já envelhecido portãozinho de ferro da entrada principal, levando meu filho a tiracolo.

 

              No antigo casario do meu avô, como do meu costume, olhei sem pressa para cima, onde o imponente telhado ainda se erguia alto – coberto por telhas rústicas feitas há mais de 50 anos. O teto é daquele tempo em que casas altas serviam como símbolo de fartura ou melhoramento da circulação de ar.

 

               E, era assim, naquela época: os telhados atravessados por longos caibros, ripas e demais partes de sustentação feitos pela longeva e imponente carnaúba, árvore bastante comum na região.

 

               Nas férias, antes de dormir depois do almoço, tinha o costume tranquilizador de ver cada fresta do antigo teto de carnaúba do casario. Cada imagem e impressão era única e mágica por causa do pouquinho do sol que entrava com a sua luz mágica. Um verdadeiro sonífero natural.


               Cada arco ou lampejo de luz, como, também, às nuvens acima do telhado, transformava-se em cavalos, anjos, dragões, cavaleiros, sorrisos, moinhos de vento, monstros e outras milhares de formas que a rica imaginação infantil poderia criar ou induzir.

 

               Penso que, como pontes, há objetos mágicos que nos fazem transportar no tempo. E à medida que o espírito imaginativo atua, podemos atravessar este portal e, em segundos, a infância reaparece, também, uma vida vivida mesmo muito antes de nosso nascimento e, quem sabe, ao futuro ou outro mundo jamais vivido. O casario e seus objetos são mágicos, sim, são pontes ou portais...

 

               Poucas foram as palavras, porque os sinais característicos da idade avançada e do peso do tempo, nitidamente, pairavam sobre o anfitrião. Apesar de tudo, o ar da sabedoria e serenidade deste se mantinha.

 

               O estranho é que o encontro entre um neto (eu), um bisneto (meu filho) e o avô (e bisavô) com mais de 80 anos, fez-me pensar no poder das engrenagens invisíveis que movem o tempo.

 

               Coloquei, por alguns minutos, o meu filho no colo do avô e, este, deu aquele sorriso meigo e acolhedor. O momento, devido a emoção, para mim, ficou gravado para sempre na memória. Mas, sem desassossego. Houve uma paz eloquentemente silenciosa.

 

               Despedi-me, com uma sensação estranha como se fosse pela última vez ... Encostei o velho portãozinho de ferro com cor de passado e, da janela do carro, pela última vez, contemplei aquele senhor símbolo de uma época.

 

              Alguns anos após, iria para o outro plano e, como há de ser para todos: as engrenagens invisíveis que movem o tempo nunca param…

 

               Talvez, não, para o velho casario e suas memórias.

 (*) cronista e contista.

 

 

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