sábado, 20 de maio de 2023

O amor é cura, mas também é loucura

 


O Último Beijo de Romeu em Julieta por Francesco Hayez. Óleo sobre tela, 1823.


O amor é cura, mas também é loucura

 

 *Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

 

Há poucos dias, deparei-me com uma frase que me fez refletir: “ O amor é cura, mas também é loucura”. Capturei-a para gravar no meu subconsciente, já fustigado de manias. 

 

A frase? Encontrei-a cara a cara em uma de minhas andanças sob o luar, pichada em um prédio abandonado. Na ocasião, sombras vieram-me a inquirir curiosamente, no meio da penumbra.

 

Eram dois habitantes, pobres seres (ou seres pobres) do velho prédio, com barbas por fazer, grossas sobrancelhas, olhos profundos e peles rudes.

 

Parei na calçada, pensando em um possível ataque das bestas míticas, quando um deles me interrogou:

 

- Olha, você é policial?

 

Longe disso, já amarelado de medo e apesar da gagueira persistente, respondi que era um simples fotógrafo amador.

 

Depois, entreolharam-se e regressaram para o seu covil. Graças a Deus, agradeci.

 

Após o susto, me questionei: como uma pessoa dita sã amava tirar fotos de pichações de meros criminosos. Ou seria loucura ou curiosidade inata?

 

Mas a verdade é que me delicio com os possíveis significados por trás das palavras do pensador anônimo, seja ele descomprometido ou apaixonado cego e desiludido.

 

Talvez o anônimo pertença àquelas classes cuja vontade de desabafar é tão grande que transcende os muros imaginários das redes sociais. Ou talvez escolha que ninguém precise comentar textualmente a sua citação, a menos que seja alguém como eu.

 

Tenho certeza de que o choque da frase do autor anônimo aumentou, sem ele saber, depois que absorvi o texto “Amor não cabe na palavra”, do experiente escritor Soares Feitosa, que faz referências ao livro “Cemitério Vivo”, de Hildeberto Barbosa Filho:

 

“Poeta Hildeberto, tanto arrodeio para lhe dizer que este verso: “O amor não cabe na palavra”, que também não cabe num livro, sequer numa biblioteca. Tampá-lo com o silêncio, tatuá-lo no coração, assim o farei. ”

 

O amor realmente não cabe na própria palavra. E Camões foi celebre ao dizer “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer...”, em penosas e belas antíteses meditando sobre a dualidade do amor como cura e insanidade.

 

Outro belo exemplo dessa dualidade e força entre o amor que é cura e, quem sabe, loucura, Romeu galanteou Julieta e transpuseram todos os limites da sociedade da época.

 

Deus é amor e o amor é Deus, correto? É aceitável que o amor, como Deus, transcenda a linguagem e a nossa simples e primitiva compreensão, pois é harmonia, e não, loucura.

 

Assim, diante da complexidade e grandeza do amor, compreendi a angústia (ou seria um achado?) do poeta anônimo do muro e de todos os outros. Percebi, num olhar mais transcendental, que a simples palavra realmente não comporta na imensidão do sentimento. E o sentimento não pode ser aprisionado na cela que é a sua própria qualificação.

 

De qualquer maneira, seja como sentimento, loucura, cura, energia divina ou Deus, ainda estou concretamente a pensar o que me levou a declamar meu amor à minha esposa diante de uma plateia cheia em uma noite de lua cheia... 

 

Talvez porque tenha assistido a Romeu e Julieta no dia anterior...

 

Parece até história de lobisomem...

 

(*) cronista e contista.

 

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Memento Mori: Reflexões de um Sobrevivente do Câncer

 

Memento Mori: Reflexões de um Sobrevivente do Câncer

 *Fabrício Carvalho Amorim Leite

 



Memento Mori: Reflexões de um Sobrevivente do Câncer

 *Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Há alguns anos, em meio às minhas andanças matinais, avistei uma frase curiosa pichada em um alto muro de um palácio, em letras características: 'dinheiro é só uma folha de papel impresso'. Quase tombei quando vi tamanha afronta a Mamon! Que absurdo! Ou será que era uma profunda verdade oculta na depredação?

No entanto, só voltei a pensar sobre aquela frase que relativizava o dinheiro e os bens materiais anos após a visita inoportuna de um hóspede indesejado chamado câncer. Ah, uma presença não convidada que modificou a minha vida e a forma como eu via o dinheiro.

Como a vida nos prega surpresas! No início de 2014, fui diagnosticado com uma forma agressiva de tumor. Foi uma mudança radical de vida, com muitos exames e cirurgias, e, por fim, a quimioterapia.

Sim, de repente, surge uma pedra no meio do caminho -, aquela, a do poeta Drummond. E então, depois de muito caminhar, a gente tira a pedra do sapato e a guarda como lembrança. Como eu, que guardei uma pecinha do aparelho que me ministrava os remédios salvadores durante o tratamento do câncer.

Guardei em uma pequena caixa e, à maneira dos estoicos, 'Memento Mori': lembre-se de que você vai morrer.

Agora, após curado, como essa doença deu uma densa ressignificação ao meu modo de pensar, bem, isso é assunto para os entendedores. Só sei que mudou, e muito.

Claro que nenhuma pessoa em sã consciência desejaria uma doença grave no meio do caminho, porém o fato é que, apesar de tudo, essa experiência me transformou.

E onde o dinheiro entra em toda essa história? Pois é, acredite ou não, assim como o câncer, a cobiça por dinheiro ou bens materiais também pode ser uma doença, gerando metástases na vida de muitas pessoas.

Viver com menos do que se ganha? Os conselheiros de planejamento financeiro dirão que sim, é possível. No entanto, na prática, com este bombardeio diurno de estímulos ao consumismo, controlar os impulsos torna-se quase como correr uma interminável maratona.

O dinheiro, assim como o consumismo, é um mestre no encanto, atraindo-nos como as sereias de Homero, que levavam os marinheiros ao fundo do mar, ou até mesmo ao fundo de um poço.

E antes que eu seja classificado como um anarquista, ou alguém desapegado que não se importa com dinheiro, deixe-me esclarecer: não é bem assim. A questão é que, muitas vezes, a mente fica tão fascinada com cifrões que a vida parece se concentrar apenas na competição, como se fosse o jogo Banco Imobiliário.

Ao pesquisar, encontrei grandes pontos positivos do jogo: ensina sobre negócios, negociação e gestão de dinheiro. Isso é muito bom. 

No entanto, neste mundo obcecado por 'quanto você possui?' e 'quanto custa?', tudo é monetizado, cunhado e amoedado: desde os momentos com a família, os sentimentos e os relacionamentos, até aqueles instantes simples e preciosos que passamos com nossos filhos e amigos.

E o avarento, uma das facetas da doença do dinheiro? Ah, esses são uma história à parte, capaz de arrancar tanto risos quanto perpétuos dós. Os vejo como pessoas sofridas. Bastante padecidas.

Pois bem, há um personagem notório taxado como Nozinho. Apesar de sua riqueza material, sua extrema miséria instintiva lhe dá a aparência de um doente crônico: pele amarelada e olhos que lembram os de um peixe morto.

Não sei se é verdade ou mentira, mas contam que ele, sentado em seu banquinho, colhia com destreza cirúrgica os piolhos e carrapatos mais rechonchudos de seus bovinos para alimentar suas galinhas.

Ele parecia ter um prazer perto do sensual em reutilizar restos de sabonetes, esmagando-os e transformando-os em um único volume, como todos os seus pão-durismos.

Em outra situação, dizia-se que ele possuía um poço artesiano rústico. E, de repente, começou a suspeitar que alguém estivesse furtando sua água. Então, ordenou que a maior vara de bambu da região fosse utilizada para medir, diariamente, o nível da preciosa água subterrânea!

E Nozinho é o dono do palácio do alto muro pichado. Um homem melancólico no seu escuro castelo de solidão.

Ele, do alto de uma de suas torres, com um ar de autoridade, sempre me fitava passar.

A pichação foi apagada pelo doente dono. Desconfio que ele tenha levado para o lado pessoal. Mesmo assim, agora com saúde, persisto em minha rotina de passar diante do muro durante minhas caminhadas matinais.

Não importa mais, pois, a frase agora está graciosamente emoldurada na parede de minha mente.

(*) cronista e contista.

 


sexta-feira, 12 de maio de 2023

Ecos da Escravidão: Revelações da Antiga Fazenda de Escravos






Ecos da Escravidão: Revelações da Antiga Fazenda de Escravos

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Essa pequena jornada e relato começaram quando descobri, por curiosidade e através de um laudo genealógico, antigos ramos de ascendência familiar, mas sem a pretensão de buscar por nobreza sanguínea de linhagem. Um dos quais me levou às velhas fazendas coloniais, outrora escravistas dos estados do Piauí e Minas Gerais, sobretudo - como muitas outras famílias com ascendência portuguesa.

Assim, numa ensolarada manhã de sábado, meu filho, alguns familiares e eu fomos de carro a uma dessas fazendas muito antigas, numa excursão histórica e familiar. Percorremos cerca de 16 km de Esperantina (PI), na estrada que leva a São João do Arraial (PI), em busca da Fazenda Olho d'Água dos Negros.

O suspense para os desbravadores de final de semana aumentou porque, na ocasião, não havia uma placa indicativa para nos guiar até a antiga entrada da fazenda, que hoje é chamada Fazenda Olho d'Água dos Negros e está localizada numa comunidade quilombola com o mesmo nome.

Em seguida, apesar dessa excitação inicial e do pequeno percurso entre a estrada de terra batida e o asfalto, chegamos a uma velha entrada em ruínas, com o que parecia ser um velho portão carcomido.

Logo depois, havia uma descida um tanto íngreme, com grandes pedras soltas, que nos levou a avistar, no fim da ladeira, a copa de um grande mangal centenário, buritis, velhas oliveiras e o telhado de um casarão baixo e grande.

Passando pelas ruínas desse antigo pórtico, lá no final da ladeira, como se estivesse incrustada em um vão ou vale perdido, escondida por um morro e cercada por árvores frondosas e belas, como mangueiras, buritis, oliveiras e outras, chegamos à casa sede da antiga fazenda.

E, brindando-nos, ainda escutamos os pássaros - como sabiás, corrupiões, pipiras e curicas - em regozijo frenético devido às azeitonas maduras e aos frutos dos muitos buritis da região.

Desde o início, senti uma sensação estranha de que o local era familiar, mesmo sem jamais ter ido antes. Apesar disso, segui em frente com meus companheiros, na aventura exploratória.

Ao chegarmos em frente à construção, ficamos um tanto como se fôssemos os primeiros desbravadores do local, já que, na ocasião, não havia um guia e as portas da velha fazenda estavam fechadas por medida de segurança. Isso aumentou ainda mais a curiosidade por novas descobertas. Enfim, livres para imaginar.

Observamos que na parte frontal da velha sede havia um extenso muro feito por pedras brutas cheias de um lodo verdoso, sem uniformidade daqueles parecidos com as formações dos castelos medievais, com cerca de três ou quatro palmos de largura e um metro e pouco de altura. Eram pedras brutas mesmo, in natura.

Ao tocar o velho muro de pedras, senti um arrepio que percorreu minha espinha. A sensação intrigante de já ter estado ali ressurgiu.

O incrível é que, na verdade, não estava tocando apenas pedras, mas sim o passado latente e vivo, especialmente quando a mente dá asas à imaginação. Nesse momento, visualizei o suor, o sangue e a dor dos cativos que deixaram marcas indeléveis naquele muro de pedra.

Outra sensação estranha causada por esse estado mental é um certo remorso por não ter podido fazer nada a respeito, embora admita que seja um sentimento exagerado.

Por sorte, ao escrever sobre o local, tento resgatar nosso passado ainda recente que ecoa no presente e no futuro, para que o trauma deixado não se repita.

Após horas perambulando ao redor do local, avistamos, ao longe, saindo de uma vereda da densa mata ao redor da casa, aquele senhor baixo e franzino, aparentando idade avançada, trajando roupas muito simples e com a pele castigada pelo sol escaldante do Piauí.

Ele carregava uma cabaça e uma enxada no ombro, mas seus passos eram firmes e ritmados. Um típico sertanejo nordestino.

Pedimos informações e, sem hesitar, ele concordou em nos guiar. Assim, o pequeno grupo de exploradores arregimentou um guia informal, o que nos agradou.

Enquanto conversávamos, fomos papeando:

- O senhor mora na região? O que pode nos contar sobre a Fazenda? E os escravos?

O senhor acendeu um velho cachimbo que estava no bolso e, como se um baú muito antigo de preciosos tesouros e informações se abrisse, começou a conversar:

- Sou bisneto dos antigos escravos desta que era uma grande fazenda, meu falecido pai ouviu de seus antepassados muitas histórias - disse o senhor, com nítido tom de satisfação.

 

- O muro de pedra e a estrutura ao redor eram maiores e foram construídos manualmente por meus antepassados. Dizem que as grandes pedras vieram dos morros próximos e de frente para a casa, como vocês podem ver. - continuou.

 

- E foram transportadas através de rústicas esteiras feitas de palha e madeira, com muitos sacrifícios. Mas não foram transportadas em lombos de animais, como vocês imaginam, e sim nos braços dos escravos. - finalizou.

Depois disso, ele passou a descrever vários detalhes e lendas da casa grande da fazenda, como um suposto porão antigo com armas, uma botica de ouro enterrada, o tamanho real original da grande propriedade (enorme), um poço mágico no quintal, entre outras coisas incríveis que mereciam muitas e muitas entrevistas.

No entanto, à medida que ele falava, adentrava em questões mais antigas e densas do local.

Em seguida, de forma espontânea, ele disse:

- Mas, senhores, preciso dizer uma coisa. Certa vez, tive uma discussão com uma pessoa. Essa pessoa falava com certa rispidez em relação aos negros e escravos, o que me incomodava. E já tinha uma certa fama por suas opiniões. - disse o senhorzinho.

 

- No entanto, um dia, numa conversa franca, disse-lhe algo que estava há muito preso em meu coração e memória...

 

- E o que foi? - perguntei dessa vez.

 

- Certo dia, de tanto ouvir tais absurdos, calmamente, disse-lhe que não podia falar mal dos escravos, pois um antigo dono de escravos engravidou uma escrava negra cativa da senzala, que por sua vez teve uma criança pertencente e acolhida pela família dos senhores. - ponderou o altivo descendente de escravos.

Para espanto de todos os pesquisadores amadores presentes, o senhorzinho revelou um episódio, até então enterrado na história:

Ou seja, apesar da escravidão como um sistema cruel e sectário, devido ao nascimento de uma criança em comum, houve uma entrelaçamento e união entre a linhagem dos antigos donos da fazenda e uma escrava negra.

Assim, de seu próprio modo, ele encarava com altivez os ecos da escravidão, talvez como parte de seu processo particular de cura.

Despediu-se com muita educação e disse que estaria à disposição para responder a outras perguntas, seguindo, apesar do peso da idade, de cabeça erguida e passos firmes, subindo a ladeira.

*Contista e cronista.

Fonte: Google



quarta-feira, 10 de maio de 2023

Banquete de Rei

 

Nonô Correia (Ary Fontoura) em Amor com Amor se paga (1984)- (Fonte: Google Imagens)


                                      Banquete de Rei

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Em um dia qualquer no sertão de nosso Senhor, dois amigos, João Sardinha e Pedavéia, enfrentavam um dilema: a comida e o dinheiro haviam acabado e eles precisavam encontrar algo para saciar a fome que já lhes doía no juízo.

Pedavéia, afeito as muitas esmolinhas de fronte a Igreja da vila próxima, reclamava, rezingava e fazia as suas advertências:

 - João. Meu estômago está roncando. Venha ver, ele parece um maracujá seco de fim de feira. Estou nesta situação por sua causa.

- Caí na sua mentira. Se remorso matasse, na porta da igreja, com essa cara abatida de fome, já tinha enchido os bolsos para tomar alguns bons goles e aperitivos.

João, distanciou-se um pouco da pequena casa de pau-a-pique e subiu um morro próximo; costume esse particular nas horas de maior preocupação ou, até porque o casebre não tinha banheiro interno...

Enfim, surgiu uma ideia: fazer um pequeno empréstimo de comida na casa de seu irmão e vizinho, que sempre tinha a despensa farta.

Claro, na mente dos saltimbancos, seria daqueles comodatos sorrateiros e sem restituição...

O irmão mais velho de João, taxado de Nozinho, por sua obsessão por acumular riqueza, ao longo da vida, já com seus cinquenta anos do Senhor, era considerado um homem rico.

Era frugal em excesso, até para os padrões dos avarentos dos arredores utilizando, por exemplo, suas roupinhas rasgadas, chinelos reaproveitados e loções baratas.

E os brechós? Era o que chegava antes de todos. Um aferrado frequentador, apesar da notoriedade por guardar até dobrões de ouro enterrados em sua propriedade.

Tinha um hábito peculiar de reutilizar restos de sabonetes, esmagando-os e transformando-os num só volume.

Certa vez, contam que ele colhia sentado em seu banquinho, com destreza cirúrgica, os carrapatos mais rechonchudos de seus bovinos para alimentar suas galinhas. "Um por um" era uma de suas meditações matinais.

Até mesmo depois da farta degustação da galinhada à cabidela em sua casa, ele soltava para os convidados: "Galinha gorda é só com carrapato de gado gordo!"

Bem que todos os convivas, jururus, não voltavam mais. Tática infalível.

Em outra situação, dizia-se que ele possuía um poço artesiano rústico. E, por pirraça ou algum outro motivo psiquiátrico, começou a suspeitar que alguém estivesse furtando sua água.

Então, ordenou que a maior vara de bambu da região fosse utilizada para medir, diariamente, o nível da preciosa água subterrânea.

Porém, esquecia-se, ou por doidice mesmo, que vivia no chamado sertão de dentro, com sua uma paisagem semiárida com vegetação baixa e espinhosa. Seus mandacarus ao redor do poço continuavam verdes o ano inteiro, apesar da evaporação e dos efeitos naturais que baixavam o nível.

Mas, nem os mandacarus traziam Nozinho a sanidade, pois dizia, com o lampião apontado para o velho poço sujo: “Não é possível, algum vizinho larápio está vindo furtar minha água a noite”.

Voltando ao habilidoso plano que estava em suas mentes, os dois amigos se aventuraram na missão enquanto seu querido irmão Nozinho saía para tomar banho no córrego, a fim de não gastar a energia da bomba do célebre poço. 

No dia, João, com cuidado, empurra a grande porta de cedro cheia de adornos, do casarão. Ele, para e olha para os lados, sem resistência.  “Sou sortudo”, pensou.

Na ampla despensa do casarão em formato oval, com sacos, caixas e outros depósitos de mantimentos, ele pegou uma porção de fava vermelha, azeite de coco babaçu e uma garrafa de cachaça de Tianguá.

Hoje nos alimentaremos bem, e você estava se lamentando. Teremos um banquete digno de reis! – Disse João ao seu cúmplice e amigo, dando-lhe um forte tapa nas costas.

Juntaram alguns galhos do quintal para o antigo fogão de barro, com Pedavéia encarregando-se no seu cargo da cozinha. João Sardinha comentou que a fava estava com um aroma agradável. Pedavéia pediu calma, dizendo que a fava estava quase pronta. 

“Então, chef Pedavéia, toma aqui uma dose daquela cachacinha da Ibiapaba para despertar o apetite”, falou João enquanto entregava a bebida. E, beberam:  glug, glug.

Enquanto isso, João Sardinha balançava animadamente a envelhecida rede de sisal. As cordas grossas roçavam no velho caibro, produzindo um som deliciosamente preguiçoso: nheco-nheco.

Meio-dia e um quarto de hora, já sentados para o almoço, enxergam, um curioso vulto no meio da vereda.

João questiona como alguém, naquele lugar, aparece sob o sol escaldante do sertão, imaginando se é bandoleiro ou alguém tantã.

Seu amigo comenta que deve ser algo urgente ou uma má notícia, já que até um jumento procuraria abrigo na sombra nesse horário.

Com lerdos passos, a figura aproxima-se. A pele tem o aspecto de doente crônico de lombrigas, amarelada, e olhos são iguais aos de um peixe morto. No entanto, ela está muito atenta a cada pedregulho no caminho, para não tropeçar.

João se assusta ao perceber que o estranho visitante é seu irmão Nozinho e teme ser pego em flagrante.

Apesar disso, eles não conseguem fugir, já que o cheiro do azeite de coco babaçu os denuncia. Nozinho se aproxima, atraído pelo aroma da comida, e João, com um tom de disfarce, o convida para se juntar a eles. Todos começam a se servir da refeição, uma típica fava vermelha.

E, por um momento, Nozinho imaginou convidá-los para visitar sua casa, especialmente porque ele era um triste homem no seu castelo de solidão.

No entanto, voltando a si, Nozinho não era inocente em todos os aspectos; na verdade, sabia intimamente do pequeno furto que seu irmão havia cometido.

“Ah, um almoço desses aqui já pagou o prejuízo do furto”, pensou ele, sentindo um misto de prazer e vitória graças ao seu ganho.

Despediu-se, levando as sobras do almoço e calculando que, ao não ter pago a diária da sua cozinheira e ao voltar com a janta e talvez alguns restos para suas ilustres galinhas, seria capaz de compensar a rapinagem do seu irmão.

 (*) cronista e contista.

 

sexta-feira, 5 de maio de 2023

Sobre “Capoeira de Espinhos”.

 

Fonte: Google


Sobre “Capoeira de Espinhos”.

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Sou um simples leitor, ou um leitor simples.  E, não, por isso, ousarei trazer minhas pequenas impressões a respeito das ideias da profunda obra Capoeira de Espinhos, do Professor Dílson Lages.

 Já tinha lido e gostado do Morro da Casa-Grande. Uma obra de densa investigação histórica e que me marcou, nomeadamente, a respeito dos acontecimentos ligados a antiga Igreja Matriz de Barras, Piauí.

Admito, era ignorante a respeito da profundez do cotidiano subterrâneo na histórica cidade.

Pois bem, através da “Capoeira de Espinhos”, notei a intricada teia. E, como um vaqueiro usa o gibão, preparei-me para leitura.

Há livros e livros, os que tiram o fôlego e que nos transportam ao centro do inconsciente. “Capoeira de Espinhos” se enquadra na segunda. Sobretudo, porque passei grande parte da minha vida numa Aldeia Viva.

A minha percepção foi provocada e instigada ao ponto de questionar a ordem estabelecida, também, da minha Aldeia Viva. E o caráter social é bem abordado.

Percebi que, ao invés de guiar o leitor por caminhos já traçados, essa obra nos faz lembrar Teseu, mas saindo do labirinto literário e seus mistérios por conta própria, e encontrar o seu próprio caminho.

Bem que o novelo, como no labirinto do Minotauro, consistiu em meus pensamentos no silêncio de minha casa.

Ou Ariadne, da mitologia, ajudou-me?

E, quando criança, fiz isso muitas vezes: uma estratégia imaginária em um labirinto de um parque próximo à minha casa....

Na pena do experiente e dedicado autor barrense, do qual considero, de sua geração, um dos maiores escritores no Piauí, caminhei a passos curtos por uma capoeira no qual intuí o labirinto em que o leitor vislumbrará.

Trata-se de um labirinto ou capoeira daquelas em que precisamos voltar ao começo algumas vezes, devido aos profundos temas tratados, como o poder, a política e a relação com pessoas simples das cidades pequenas.

O que ele quis dizer com Capoeira de Espinhos? Possivelmente, um terreno cujo mato foi roçado e usado várias vezes. E está abandonado, pobre. Como muitas cidadezinhas do país. Desafiador.

E que o “poder é uma vacaria”? Quem sabe porque os currais de eleitores existam pela pobreza. Talvez.

Por outro lado, isso não significa que a capoeira de espinhos da chapada do semiárido seja intransponível: - existe o gibão para a proteção dos espinhos, a sabedoria e a reflexão do homem simples, há a observação dos hábitos dos animais (urubus) e dos conselhos dos mais velhos -.

Mas é porque o autor mostra, através da arte das palavras, por que o sertão nordestino e suas cidadezinhas são como são: ainda brutas, limitadas, contraditórias e fruto de centenas de anos sob o domínio imperioso de poucos sobre muitos.  O poder e sua mordaz sedução.

Vejamos:

“Os mais ricos daqui, metidos em política, morreram pobres, pobres. Uns gastaram o suor da família, as heranças, terra, gado, as últimas moedas que sobravam; outros enricaram na política, mas andam pedindo benção...”

Contraditoriamente, é uma capoeira árida, mas domável, ao menos, pelas palavras. E abundante de histórias, personagens e cultura. Além disso, o autor traz visibilidade a personagens cotidianos como o aposentando, o pedreiro, o vigia e outros.

No fim, a impressão que tive foi que, apesar da dura realidade, sátiras bem fundamentadas e contradições retratadas no pequeno grande livro, resta-nos, como a flor do mandacaru, renascer linda e resistentes da aridez da capoeira de espinhos.

Ótima leitura.

(*) advogado e escritor.