sexta-feira, 12 de maio de 2023

Ecos da Escravidão: Revelações da Antiga Fazenda de Escravos






Ecos da Escravidão: Revelações da Antiga Fazenda de Escravos

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Essa pequena jornada e relato começaram quando descobri, por curiosidade e através de um laudo genealógico, antigos ramos de ascendência familiar, mas sem a pretensão de buscar por nobreza sanguínea de linhagem. Um dos quais me levou às velhas fazendas coloniais, outrora escravistas dos estados do Piauí e Minas Gerais, sobretudo - como muitas outras famílias com ascendência portuguesa.

Assim, numa ensolarada manhã de sábado, meu filho, alguns familiares e eu fomos de carro a uma dessas fazendas muito antigas, numa excursão histórica e familiar. Percorremos cerca de 16 km de Esperantina (PI), na estrada que leva a São João do Arraial (PI), em busca da Fazenda Olho d'Água dos Negros.

O suspense para os desbravadores de final de semana aumentou porque, na ocasião, não havia uma placa indicativa para nos guiar até a antiga entrada da fazenda, que hoje é chamada Fazenda Olho d'Água dos Negros e está localizada numa comunidade quilombola com o mesmo nome.

Em seguida, apesar dessa excitação inicial e do pequeno percurso entre a estrada de terra batida e o asfalto, chegamos a uma velha entrada em ruínas, com o que parecia ser um velho portão carcomido.

Logo depois, havia uma descida um tanto íngreme, com grandes pedras soltas, que nos levou a avistar, no fim da ladeira, a copa de um grande mangal centenário, buritis, velhas oliveiras e o telhado de um casarão baixo e grande.

Passando pelas ruínas desse antigo pórtico, lá no final da ladeira, como se estivesse incrustada em um vão ou vale perdido, escondida por um morro e cercada por árvores frondosas e belas, como mangueiras, buritis, oliveiras e outras, chegamos à casa sede da antiga fazenda.

E, brindando-nos, ainda escutamos os pássaros - como sabiás, corrupiões, pipiras e curicas - em regozijo frenético devido às azeitonas maduras e aos frutos dos muitos buritis da região.

Desde o início, senti uma sensação estranha de que o local era familiar, mesmo sem jamais ter ido antes. Apesar disso, segui em frente com meus companheiros, na aventura exploratória.

Ao chegarmos em frente à construção, ficamos um tanto como se fôssemos os primeiros desbravadores do local, já que, na ocasião, não havia um guia e as portas da velha fazenda estavam fechadas por medida de segurança. Isso aumentou ainda mais a curiosidade por novas descobertas. Enfim, livres para imaginar.

Observamos que na parte frontal da velha sede havia um extenso muro feito por pedras brutas cheias de um lodo verdoso, sem uniformidade daqueles parecidos com as formações dos castelos medievais, com cerca de três ou quatro palmos de largura e um metro e pouco de altura. Eram pedras brutas mesmo, in natura.

Ao tocar o velho muro de pedras, senti um arrepio que percorreu minha espinha. A sensação intrigante de já ter estado ali ressurgiu.

O incrível é que, na verdade, não estava tocando apenas pedras, mas sim o passado latente e vivo, especialmente quando a mente dá asas à imaginação. Nesse momento, visualizei o suor, o sangue e a dor dos cativos que deixaram marcas indeléveis naquele muro de pedra.

Outra sensação estranha causada por esse estado mental é um certo remorso por não ter podido fazer nada a respeito, embora admita que seja um sentimento exagerado.

Por sorte, ao escrever sobre o local, tento resgatar nosso passado ainda recente que ecoa no presente e no futuro, para que o trauma deixado não se repita.

Após horas perambulando ao redor do local, avistamos, ao longe, saindo de uma vereda da densa mata ao redor da casa, aquele senhor baixo e franzino, aparentando idade avançada, trajando roupas muito simples e com a pele castigada pelo sol escaldante do Piauí.

Ele carregava uma cabaça e uma enxada no ombro, mas seus passos eram firmes e ritmados. Um típico sertanejo nordestino.

Pedimos informações e, sem hesitar, ele concordou em nos guiar. Assim, o pequeno grupo de exploradores arregimentou um guia informal, o que nos agradou.

Enquanto conversávamos, fomos papeando:

- O senhor mora na região? O que pode nos contar sobre a Fazenda? E os escravos?

O senhor acendeu um velho cachimbo que estava no bolso e, como se um baú muito antigo de preciosos tesouros e informações se abrisse, começou a conversar:

- Sou bisneto dos antigos escravos desta que era uma grande fazenda, meu falecido pai ouviu de seus antepassados muitas histórias - disse o senhor, com nítido tom de satisfação.

 

- O muro de pedra e a estrutura ao redor eram maiores e foram construídos manualmente por meus antepassados. Dizem que as grandes pedras vieram dos morros próximos e de frente para a casa, como vocês podem ver. - continuou.

 

- E foram transportadas através de rústicas esteiras feitas de palha e madeira, com muitos sacrifícios. Mas não foram transportadas em lombos de animais, como vocês imaginam, e sim nos braços dos escravos. - finalizou.

Depois disso, ele passou a descrever vários detalhes e lendas da casa grande da fazenda, como um suposto porão antigo com armas, uma botica de ouro enterrada, o tamanho real original da grande propriedade (enorme), um poço mágico no quintal, entre outras coisas incríveis que mereciam muitas e muitas entrevistas.

No entanto, à medida que ele falava, adentrava em questões mais antigas e densas do local.

Em seguida, de forma espontânea, ele disse:

- Mas, senhores, preciso dizer uma coisa. Certa vez, tive uma discussão com uma pessoa. Essa pessoa falava com certa rispidez em relação aos negros e escravos, o que me incomodava. E já tinha uma certa fama por suas opiniões. - disse o senhorzinho.

 

- No entanto, um dia, numa conversa franca, disse-lhe algo que estava há muito preso em meu coração e memória...

 

- E o que foi? - perguntei dessa vez.

 

- Certo dia, de tanto ouvir tais absurdos, calmamente, disse-lhe que não podia falar mal dos escravos, pois um antigo dono de escravos engravidou uma escrava negra cativa da senzala, que por sua vez teve uma criança pertencente e acolhida pela família dos senhores. - ponderou o altivo descendente de escravos.

Para espanto de todos os pesquisadores amadores presentes, o senhorzinho revelou um episódio, até então enterrado na história:

Ou seja, apesar da escravidão como um sistema cruel e sectário, devido ao nascimento de uma criança em comum, houve uma entrelaçamento e união entre a linhagem dos antigos donos da fazenda e uma escrava negra.

Assim, de seu próprio modo, ele encarava com altivez os ecos da escravidão, talvez como parte de seu processo particular de cura.

Despediu-se com muita educação e disse que estaria à disposição para responder a outras perguntas, seguindo, apesar do peso da idade, de cabeça erguida e passos firmes, subindo a ladeira.

*Contista e cronista.

Fonte: Google



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