quarta-feira, 10 de maio de 2023

Banquete de Rei

 

Nonô Correia (Ary Fontoura) em Amor com Amor se paga (1984)- (Fonte: Google Imagens)


                                      Banquete de Rei

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

Em um dia qualquer no sertão de nosso Senhor, dois amigos, João Sardinha e Pedavéia, enfrentavam um dilema: a comida e o dinheiro haviam acabado e eles precisavam encontrar algo para saciar a fome que já lhes doía no juízo.

Pedavéia, afeito as muitas esmolinhas de fronte a Igreja da vila próxima, reclamava, rezingava e fazia as suas advertências:

 - João. Meu estômago está roncando. Venha ver, ele parece um maracujá seco de fim de feira. Estou nesta situação por sua causa.

- Caí na sua mentira. Se remorso matasse, na porta da igreja, com essa cara abatida de fome, já tinha enchido os bolsos para tomar alguns bons goles e aperitivos.

João, distanciou-se um pouco da pequena casa de pau-a-pique e subiu um morro próximo; costume esse particular nas horas de maior preocupação ou, até porque o casebre não tinha banheiro interno...

Enfim, surgiu uma ideia: fazer um pequeno empréstimo de comida na casa de seu irmão e vizinho, que sempre tinha a despensa farta.

Claro, na mente dos saltimbancos, seria daqueles comodatos sorrateiros e sem restituição...

O irmão mais velho de João, taxado de Nozinho, por sua obsessão por acumular riqueza, ao longo da vida, já com seus cinquenta anos do Senhor, era considerado um homem rico.

Era frugal em excesso, até para os padrões dos avarentos dos arredores utilizando, por exemplo, suas roupinhas rasgadas, chinelos reaproveitados e loções baratas.

E os brechós? Era o que chegava antes de todos. Um aferrado frequentador, apesar da notoriedade por guardar até dobrões de ouro enterrados em sua propriedade.

Tinha um hábito peculiar de reutilizar restos de sabonetes, esmagando-os e transformando-os num só volume.

Certa vez, contam que ele colhia sentado em seu banquinho, com destreza cirúrgica, os carrapatos mais rechonchudos de seus bovinos para alimentar suas galinhas. "Um por um" era uma de suas meditações matinais.

Até mesmo depois da farta degustação da galinhada à cabidela em sua casa, ele soltava para os convidados: "Galinha gorda é só com carrapato de gado gordo!"

Bem que todos os convivas, jururus, não voltavam mais. Tática infalível.

Em outra situação, dizia-se que ele possuía um poço artesiano rústico. E, por pirraça ou algum outro motivo psiquiátrico, começou a suspeitar que alguém estivesse furtando sua água.

Então, ordenou que a maior vara de bambu da região fosse utilizada para medir, diariamente, o nível da preciosa água subterrânea.

Porém, esquecia-se, ou por doidice mesmo, que vivia no chamado sertão de dentro, com sua uma paisagem semiárida com vegetação baixa e espinhosa. Seus mandacarus ao redor do poço continuavam verdes o ano inteiro, apesar da evaporação e dos efeitos naturais que baixavam o nível.

Mas, nem os mandacarus traziam Nozinho a sanidade, pois dizia, com o lampião apontado para o velho poço sujo: “Não é possível, algum vizinho larápio está vindo furtar minha água a noite”.

Voltando ao habilidoso plano que estava em suas mentes, os dois amigos se aventuraram na missão enquanto seu querido irmão Nozinho saía para tomar banho no córrego, a fim de não gastar a energia da bomba do célebre poço. 

No dia, João, com cuidado, empurra a grande porta de cedro cheia de adornos, do casarão. Ele, para e olha para os lados, sem resistência.  “Sou sortudo”, pensou.

Na ampla despensa do casarão em formato oval, com sacos, caixas e outros depósitos de mantimentos, ele pegou uma porção de fava vermelha, azeite de coco babaçu e uma garrafa de cachaça de Tianguá.

Hoje nos alimentaremos bem, e você estava se lamentando. Teremos um banquete digno de reis! – Disse João ao seu cúmplice e amigo, dando-lhe um forte tapa nas costas.

Juntaram alguns galhos do quintal para o antigo fogão de barro, com Pedavéia encarregando-se no seu cargo da cozinha. João Sardinha comentou que a fava estava com um aroma agradável. Pedavéia pediu calma, dizendo que a fava estava quase pronta. 

“Então, chef Pedavéia, toma aqui uma dose daquela cachacinha da Ibiapaba para despertar o apetite”, falou João enquanto entregava a bebida. E, beberam:  glug, glug.

Enquanto isso, João Sardinha balançava animadamente a envelhecida rede de sisal. As cordas grossas roçavam no velho caibro, produzindo um som deliciosamente preguiçoso: nheco-nheco.

Meio-dia e um quarto de hora, já sentados para o almoço, enxergam, um curioso vulto no meio da vereda.

João questiona como alguém, naquele lugar, aparece sob o sol escaldante do sertão, imaginando se é bandoleiro ou alguém tantã.

Seu amigo comenta que deve ser algo urgente ou uma má notícia, já que até um jumento procuraria abrigo na sombra nesse horário.

Com lerdos passos, a figura aproxima-se. A pele tem o aspecto de doente crônico de lombrigas, amarelada, e olhos são iguais aos de um peixe morto. No entanto, ela está muito atenta a cada pedregulho no caminho, para não tropeçar.

João se assusta ao perceber que o estranho visitante é seu irmão Nozinho e teme ser pego em flagrante.

Apesar disso, eles não conseguem fugir, já que o cheiro do azeite de coco babaçu os denuncia. Nozinho se aproxima, atraído pelo aroma da comida, e João, com um tom de disfarce, o convida para se juntar a eles. Todos começam a se servir da refeição, uma típica fava vermelha.

E, por um momento, Nozinho imaginou convidá-los para visitar sua casa, especialmente porque ele era um triste homem no seu castelo de solidão.

No entanto, voltando a si, Nozinho não era inocente em todos os aspectos; na verdade, sabia intimamente do pequeno furto que seu irmão havia cometido.

“Ah, um almoço desses aqui já pagou o prejuízo do furto”, pensou ele, sentindo um misto de prazer e vitória graças ao seu ganho.

Despediu-se, levando as sobras do almoço e calculando que, ao não ter pago a diária da sua cozinheira e ao voltar com a janta e talvez alguns restos para suas ilustres galinhas, seria capaz de compensar a rapinagem do seu irmão.

 (*) cronista e contista.

 

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