Banquete de Rei
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Em um dia qualquer
no sertão de nosso Senhor, dois amigos, João Sardinha e Pedavéia, enfrentavam
um dilema: a comida e o dinheiro haviam acabado e eles precisavam encontrar
algo para saciar a fome que já lhes doía no juízo.
Pedavéia, afeito as
muitas esmolinhas de fronte a Igreja da vila próxima, reclamava, rezingava e
fazia as suas advertências:
- João. Meu estômago está roncando. Venha ver,
ele parece um maracujá seco de fim de feira. Estou nesta situação por sua
causa.
- Caí na sua mentira.
Se remorso matasse, na porta da igreja, com essa cara abatida de fome, já tinha
enchido os bolsos para tomar alguns bons goles e aperitivos.
João, distanciou-se
um pouco da pequena casa de pau-a-pique e subiu um morro próximo; costume esse
particular nas horas de maior preocupação ou, até porque o casebre não tinha
banheiro interno...
Enfim, surgiu uma
ideia: fazer um pequeno empréstimo de comida na casa de seu irmão e vizinho,
que sempre tinha a despensa farta.
Claro, na mente dos
saltimbancos, seria daqueles comodatos sorrateiros e sem restituição...
O irmão mais velho
de João, taxado de Nozinho, por sua obsessão por acumular riqueza, ao longo da
vida, já com seus cinquenta anos do Senhor, era considerado um homem rico.
Era frugal em
excesso, até para os padrões dos avarentos dos arredores utilizando, por
exemplo, suas roupinhas rasgadas, chinelos reaproveitados e loções baratas.
E os brechós? Era o
que chegava antes de todos. Um aferrado frequentador, apesar da notoriedade por
guardar até dobrões de ouro enterrados em sua propriedade.
Tinha um hábito
peculiar de reutilizar restos de sabonetes, esmagando-os e transformando-os num
só volume.
Certa vez, contam que
ele colhia sentado em seu banquinho, com destreza cirúrgica, os carrapatos mais
rechonchudos de seus bovinos para alimentar suas galinhas. "Um por
um" era uma de suas meditações matinais.
Até mesmo depois da
farta degustação da galinhada à cabidela em sua casa, ele soltava para os
convidados: "Galinha gorda é só com carrapato de gado gordo!"
Bem que todos os
convivas, jururus, não voltavam mais. Tática infalível.
Em outra situação,
dizia-se que ele possuía um poço artesiano rústico. E, por pirraça ou algum
outro motivo psiquiátrico, começou a suspeitar que alguém estivesse furtando
sua água.
Então, ordenou que a
maior vara de bambu da região fosse utilizada para medir, diariamente, o nível
da preciosa água subterrânea.
Porém, esquecia-se,
ou por doidice mesmo, que vivia no chamado sertão de dentro, com sua uma
paisagem semiárida com vegetação baixa e espinhosa. Seus mandacarus ao redor do
poço continuavam verdes o ano inteiro, apesar da evaporação e dos efeitos
naturais que baixavam o nível.
Mas, nem os
mandacarus traziam Nozinho a sanidade, pois dizia, com o lampião apontado para
o velho poço sujo: “Não é possível, algum vizinho larápio está vindo furtar
minha água a noite”.
Voltando ao
habilidoso plano que estava em suas mentes, os dois amigos se aventuraram na
missão enquanto seu querido irmão Nozinho saía para tomar banho no córrego, a
fim de não gastar a energia da bomba do célebre poço.
No dia, João, com
cuidado, empurra a grande porta de cedro cheia de adornos, do casarão. Ele,
para e olha para os lados, sem resistência.
“Sou sortudo”, pensou.
Na ampla despensa do
casarão em formato oval, com sacos, caixas e outros depósitos de mantimentos,
ele pegou uma porção de fava vermelha, azeite de coco babaçu e uma garrafa de
cachaça de Tianguá.
Hoje nos
alimentaremos bem, e você estava se lamentando. Teremos um banquete digno de
reis! – Disse João ao seu cúmplice e amigo, dando-lhe um forte tapa nas costas.
Juntaram alguns
galhos do quintal para o antigo fogão de barro, com Pedavéia encarregando-se no
seu cargo da cozinha. João Sardinha comentou que a fava estava com um aroma
agradável. Pedavéia pediu calma, dizendo que a fava estava quase pronta.
“Então, chef
Pedavéia, toma aqui uma dose daquela cachacinha da Ibiapaba para despertar o
apetite”, falou João enquanto entregava a bebida. E, beberam: glug, glug.
Enquanto isso, João
Sardinha balançava animadamente a envelhecida rede de sisal. As cordas grossas
roçavam no velho caibro, produzindo um som deliciosamente preguiçoso:
nheco-nheco.
Meio-dia e um quarto
de hora, já sentados para o almoço, enxergam, um curioso vulto no meio da
vereda.
João questiona como
alguém, naquele lugar, aparece sob o sol escaldante do sertão, imaginando se é
bandoleiro ou alguém tantã.
Seu amigo comenta
que deve ser algo urgente ou uma má notícia, já que até um jumento procuraria
abrigo na sombra nesse horário.
Com lerdos passos, a
figura aproxima-se. A pele tem o aspecto de doente crônico de lombrigas,
amarelada, e olhos são iguais aos de um peixe morto. No entanto, ela está muito
atenta a cada pedregulho no caminho, para não tropeçar.
João se assusta ao
perceber que o estranho visitante é seu irmão Nozinho e teme ser pego em
flagrante.
Apesar disso, eles
não conseguem fugir, já que o cheiro do azeite de coco babaçu os denuncia.
Nozinho se aproxima, atraído pelo aroma da comida, e João, com um tom de
disfarce, o convida para se juntar a eles. Todos começam a se servir da
refeição, uma típica fava vermelha.
E, por um momento,
Nozinho imaginou convidá-los para visitar sua casa, especialmente porque ele era
um triste homem no seu castelo de solidão.
No entanto, voltando
a si, Nozinho não era inocente em todos os aspectos; na verdade, sabia
intimamente do pequeno furto que seu irmão havia cometido.
“Ah, um almoço
desses aqui já pagou o prejuízo do furto”, pensou ele, sentindo um misto de
prazer e vitória graças ao seu ganho.
Despediu-se, levando
as sobras do almoço e calculando que, ao não ter pago a diária da sua
cozinheira e ao voltar com a janta e talvez alguns restos para suas ilustres
galinhas, seria capaz de compensar a rapinagem do seu irmão.
(*) cronista
e contista.

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