O amor é cura, mas também é loucura
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Há poucos dias, deparei-me com uma frase que me fez
refletir: “ O amor é cura, mas também é loucura”. Capturei-a para gravar no meu
subconsciente, já fustigado de manias.
A frase? Encontrei-a cara a cara em uma de minhas
andanças sob o luar, pichada em um prédio abandonado. Na ocasião, sombras
vieram-me a inquirir curiosamente, no meio da penumbra.
Eram dois habitantes, pobres seres (ou seres
pobres) do velho prédio, com barbas por fazer, grossas sobrancelhas, olhos
profundos e peles rudes.
Parei na calçada, pensando em um possível ataque
das bestas míticas, quando um deles me interrogou:
- Olha, você é policial?
Longe disso, já amarelado de medo e apesar da gagueira
persistente, respondi que era um simples fotógrafo amador.
Depois, entreolharam-se e regressaram para o seu
covil. Graças a Deus, agradeci.
Após o susto, me questionei: como uma pessoa dita
sã amava tirar fotos de pichações de meros criminosos. Ou seria loucura ou
curiosidade inata?
Mas a verdade é que me delicio com os possíveis
significados por trás das palavras do pensador anônimo, seja ele
descomprometido ou apaixonado cego e desiludido.
Talvez o anônimo pertença àquelas classes cuja
vontade de desabafar é tão grande que transcende os muros imaginários das redes
sociais. Ou talvez escolha que ninguém precise comentar textualmente a sua
citação, a menos que seja alguém como eu.
Tenho certeza de que o choque da frase do autor anônimo aumentou, sem ele
saber, depois que absorvi o texto “Amor não cabe na palavra”, do experiente
escritor Soares Feitosa, que faz referências ao livro “Cemitério Vivo”, de
Hildeberto Barbosa Filho:
“Poeta Hildeberto, tanto arrodeio para lhe dizer
que este verso: “O amor não cabe na palavra”, que também não cabe num livro,
sequer numa biblioteca. Tampá-lo com o silêncio, tatuá-lo no coração, assim o
farei. ”
O amor realmente não cabe na própria palavra. E
Camões foi celebre ao dizer “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói,
e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem
doer...”, em penosas e belas antíteses meditando sobre a dualidade do amor como
cura e insanidade.
Outro belo exemplo dessa dualidade e força entre o
amor que é cura e, quem sabe, loucura, Romeu galanteou Julieta e transpuseram todos os limites
da sociedade da época.
Deus é amor e o amor é Deus, correto? É aceitável
que o amor, como Deus, transcenda a linguagem e a nossa simples e primitiva
compreensão, pois é harmonia, e não, loucura.
Assim, diante da complexidade e grandeza do amor,
compreendi a angústia (ou seria um achado?) do poeta anônimo do muro e de todos
os outros. Percebi, num olhar mais transcendental, que a simples palavra
realmente não comporta na imensidão do sentimento. E o sentimento não pode ser aprisionado
na cela que é a sua própria qualificação.
De qualquer maneira, seja como sentimento, loucura,
cura, energia divina ou Deus, ainda estou concretamente a pensar o que me levou
a declamar meu amor à minha esposa diante de uma plateia cheia em uma noite de
lua cheia...
Talvez porque tenha assistido a Romeu e Julieta no
dia anterior...
Parece até história de lobisomem...
(*) cronista
e contista.


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