sábado, 20 de maio de 2023

O amor é cura, mas também é loucura

 


O Último Beijo de Romeu em Julieta por Francesco Hayez. Óleo sobre tela, 1823.


O amor é cura, mas também é loucura

 

 *Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

 

Há poucos dias, deparei-me com uma frase que me fez refletir: “ O amor é cura, mas também é loucura”. Capturei-a para gravar no meu subconsciente, já fustigado de manias. 

 

A frase? Encontrei-a cara a cara em uma de minhas andanças sob o luar, pichada em um prédio abandonado. Na ocasião, sombras vieram-me a inquirir curiosamente, no meio da penumbra.

 

Eram dois habitantes, pobres seres (ou seres pobres) do velho prédio, com barbas por fazer, grossas sobrancelhas, olhos profundos e peles rudes.

 

Parei na calçada, pensando em um possível ataque das bestas míticas, quando um deles me interrogou:

 

- Olha, você é policial?

 

Longe disso, já amarelado de medo e apesar da gagueira persistente, respondi que era um simples fotógrafo amador.

 

Depois, entreolharam-se e regressaram para o seu covil. Graças a Deus, agradeci.

 

Após o susto, me questionei: como uma pessoa dita sã amava tirar fotos de pichações de meros criminosos. Ou seria loucura ou curiosidade inata?

 

Mas a verdade é que me delicio com os possíveis significados por trás das palavras do pensador anônimo, seja ele descomprometido ou apaixonado cego e desiludido.

 

Talvez o anônimo pertença àquelas classes cuja vontade de desabafar é tão grande que transcende os muros imaginários das redes sociais. Ou talvez escolha que ninguém precise comentar textualmente a sua citação, a menos que seja alguém como eu.

 

Tenho certeza de que o choque da frase do autor anônimo aumentou, sem ele saber, depois que absorvi o texto “Amor não cabe na palavra”, do experiente escritor Soares Feitosa, que faz referências ao livro “Cemitério Vivo”, de Hildeberto Barbosa Filho:

 

“Poeta Hildeberto, tanto arrodeio para lhe dizer que este verso: “O amor não cabe na palavra”, que também não cabe num livro, sequer numa biblioteca. Tampá-lo com o silêncio, tatuá-lo no coração, assim o farei. ”

 

O amor realmente não cabe na própria palavra. E Camões foi celebre ao dizer “Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer...”, em penosas e belas antíteses meditando sobre a dualidade do amor como cura e insanidade.

 

Outro belo exemplo dessa dualidade e força entre o amor que é cura e, quem sabe, loucura, Romeu galanteou Julieta e transpuseram todos os limites da sociedade da época.

 

Deus é amor e o amor é Deus, correto? É aceitável que o amor, como Deus, transcenda a linguagem e a nossa simples e primitiva compreensão, pois é harmonia, e não, loucura.

 

Assim, diante da complexidade e grandeza do amor, compreendi a angústia (ou seria um achado?) do poeta anônimo do muro e de todos os outros. Percebi, num olhar mais transcendental, que a simples palavra realmente não comporta na imensidão do sentimento. E o sentimento não pode ser aprisionado na cela que é a sua própria qualificação.

 

De qualquer maneira, seja como sentimento, loucura, cura, energia divina ou Deus, ainda estou concretamente a pensar o que me levou a declamar meu amor à minha esposa diante de uma plateia cheia em uma noite de lua cheia... 

 

Talvez porque tenha assistido a Romeu e Julieta no dia anterior...

 

Parece até história de lobisomem...

 

(*) cronista e contista.

 

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