Sarça
ardente
Fabrício Carvalho
Amorim Leite*
Nestes dias,
coube-me, pela ordem natural das cousas, a tarefa de preparar os objetos
deixados por meu pai – um gesto que, dizem, marca o verdadeiro amadurecimento
do homem: encarar, de frente, a morte do próprio pai.
Um inventário dos
momentos deixados: aquele número de telefone era ele por décadas – todas as
noites, falávamos. O jeito de sentar-se na velha cadeira desbotada, sempre a
predileta, era inconfundível. A xícara de café com que ele me servia ainda
estava lá, junto às inseparáveis boinas. Cada objeto, agora órfão, parecia
aguardar um novo destino.
O luto é estranho:
silencia o mundo, mas não aquieta as perguntas. Na quietude daquela casa,
compreendi que os objetos são fragmentos da personalidade dos que se foram –
pedaços deixados como testemunhas de uma ausência.
O que fazer com os
sapatos que ele tanto gostava, seus discos, as fotos escondidas no fundo do
armário? A culpa sussurrante insistia e assistia, penosa, enquanto encaixava os
objetos, sentindo que, a cada gesto, apagava partes dele. E o silêncio? Apenas
cúmplice do luto, pesou mais que a ausência. Aquela mania de criança de revirar
as coisas perdeu, ali, sua graça.
Na missa, encontrei
um breve consolo do peso das coisas deixadas. O turíbulo balançava suavemente,
espalhando o aroma do incenso, enquanto as palavras do padre ecoavam: “Não
ajunteis tesouros na terra”. Perdi o olhar no fogo que brincava no turíbulo, e
uma prece, sem aviso, escapou: Afaste-se, saudade, sarça ardente, fogo que nunca
se apaga. Mas, ao sair, o vazio ainda se agarrava a mim, como uma sombra
que não se deixa abandonar.
Ao cruzar a velha casa, aquele alívio efêmero dissolveu-se, como se a
saudade encontrasse seu lugar entre os cômodos vazios. O Nada ainda me buscava.
Na sala, despojada de móveis, permaneciam os vestígios de uma história partida.
O sol atravessava
as janelas descortinadas, despejando luz sobre telas, ornamentos e fotografias
empilhadas às pressas, como se tentassem disfarçar a coisa nenhuma que tudo comia.
Meu maior temor era
que o meu pai se apagasse da memória, submerso no passado e deixando o presente
desfigurado. Besteira! Como quem se agarra a uma âncora, apanhei um retrato –
aquele instante para sempre alegre. O resto... foi confiado ao mundo.
Sarça ardente, ardente...
ardente.
(*) contista e cronista.