Admirável
mundo dos palavrões e calões
Fabrício
Carvalho Amorim Leite
Avisa-se, leitor sensível, que
a crônica adiante inclui palavras depravadas e pecaminosas (sobretudo para os
falsos moralistas); insultuosas, perversas e da mais alta maldade e periculosidade.
E, pede-se às crianças que saiam do ambiente.
De fato, minha introdução ao
sedutor universo dos palavrões e calões ocorreu na infância, com o tio Xixita.
Este, no conforto de um Chevrolet Caravam, acionava a buzina ao menor sinal de barbeiragem dos outros
motoristas. Em seguida, um p*ta que o pariu, vai à m*rd*, burro, jumento,
t*b*cudo ou xibungo, demostravam, assim, a sua notável erudição.
Infelizmente, com a chegada do
ar-condicionado veicular, tio Xixita perdeu o posto de xingador mor e de alto escalão da família. E o Caravam foi para o cemitério
dos car*lhambeques.
Vejam bem, os xingamentos dele
não desaparecerem. Foi por culpa do abafamento do som, trazido pelos vidros elétricos
das janelas dos carros, o querido Titio Xixita perdeu o portentoso título.
Agora, tudo que lhe resta é arregaçar
as mangas com punhos cerrados, mostrar a língua para aumentar a f*leragem e, tal como um mestre no ofício,
exibir o torto dedo médio aos coleguinhas motoristas. Isso, sem
bofetadas, claro.
Para mim, o titio foi um
visionário, espécie de Henry Ford dos calões,
com colhões e muitos cabelos na venta (que é sinal de cabra macho e brabo),
daqueles que, mesmo a ferro e fogo, venceram o fodástico mundo das aparências e
convenções.
Do seu jeito, extravasava os
seus inventivos sentimentos, já que, antes da terapia dos calões
automobilísticos, era um sujeito que sempre estava em apuros e partia logo para
a porrada.
E, pelo visto, titio deixou
discípulos na família. Já que apreendi muito com o professor, tão e tanto que,
num dia desses, ao topar numa pedra, soltei logo um f*d*-s*, f*o da égua e c*ralhos
o f*dam!
Desgraçada pedra que me lascou
o dedão do pé direito. Fiquei furibundo, de nariz torcido (e dedão também),
como um cão raivoso (palavrõezitos).
Mesmo assim, quando o dedão
ficou melhor, fui ligeiro andar a coçar o c* pelas esquinas, fazer cera, versos
à Lua, andar a flaino, a preguiçar e a mandriar no boteco até entornar o caneco...
(*)
cronista e contista.




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