quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Admirável mundo dos palavrões e calões



 

Admirável mundo dos palavrões e calões

Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Avisa-se, leitor sensível, que a crônica adiante inclui palavras depravadas e pecaminosas (sobretudo para os falsos moralistas); insultuosas, perversas e da mais alta maldade e periculosidade. E, pede-se às crianças que saiam do ambiente.

De fato, minha introdução ao sedutor universo dos palavrões e calões ocorreu na infância, com o tio Xixita. Este, no conforto de um Chevrolet Caravam, acionava a buzina ao menor sinal de barbeiragem dos outros motoristas. Em seguida, um p*ta que o pariu, vai à m*rd*, burro, jumento, t*b*cudo ou xibungo, demostravam, assim, a sua notável erudição.

Infelizmente, com a chegada do ar-condicionado veicular, tio Xixita perdeu o posto de xingador mor e de alto escalão da família. E o Caravam foi para o cemitério dos car*lhambeques. 

Vejam bem, os xingamentos dele não desaparecerem. Foi por culpa do abafamento do som, trazido pelos vidros elétricos das janelas dos carros, o querido Titio Xixita perdeu o portentoso título.

Agora, tudo que lhe resta é arregaçar as mangas com punhos cerrados, mostrar a língua para aumentar a f*leragem e, tal como um mestre no ofício, exibir o torto dedo médio aos coleguinhas motoristas. Isso, sem bofetadas, claro.

Para mim, o titio foi um visionário, espécie de Henry Ford dos calões, com colhões e muitos cabelos na venta (que é sinal de cabra macho e brabo), daqueles que, mesmo a ferro e fogo, venceram o fodástico mundo das aparências e convenções.

Do seu jeito, extravasava os seus inventivos sentimentos, já que, antes da terapia dos calões automobilísticos, era um sujeito que sempre estava em apuros e partia logo para a porrada.

E, pelo visto, titio deixou discípulos na família. Já que apreendi muito com o professor, tão e tanto que, num dia desses, ao topar numa pedra, soltei logo um f*d*-s*, f*o da égua e c*ralhos o f*dam!

Desgraçada pedra que me lascou o dedão do pé direito. Fiquei furibundo, de nariz torcido (e dedão também), como um cão raivoso (palavrõezitos).

Mesmo assim, quando o dedão ficou melhor, fui ligeiro andar a coçar o c* pelas esquinas, fazer cera, versos à Lua, andar a flaino, a preguiçar e a mandriar no boteco até entornar o caneco...

 (*) cronista e contista.

 

 

 

 

segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Reconciliação

 


                                                                  Fonte: Google


Reconciliação 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite  

 

Ah, Teresa Cristina, como poderia esquecer nossos primeiros dias? Aqueles quarenta graus ainda seguem. Nada além de nós importava; a juventude e os hormônios nos levavam em passo acelerado ao clímax.

 

Aliás, aprendi que o envelhecer traz mudanças na tolerância ao nosso ambiente. Sabe, não pudemos evitar o ciclo marcado por nossos lagos secando, ipês-amarelos floridos, agora murchos, e jardins que se tornaram cinzas.

  

Os passeios ao ar livre perderam o encanto. Nossa relação se tornou árida. 

 

Lembro-me daquele primeiro beijo no banco da praça Pedro II, com o antigo e fresco pôr do sol conosco brincando num tempo perdido.  

 

E os passeios coladinhos? Só nos raros dias amenos, pois os quase cinquenta anos afetaram o meu vigor. 

 

Você, porém, continua espantosamente fogosa, ardente e uma Capitu moderna, não é?  

 

Sim, por causa do nosso desgaste, cheguei a cogitar nunca mais te ver.  Eu sei que suspeitava do motivo...  

 

Ela, aquela Pessoa que não é pessoa, moradora juntinha da Serra da Borborema, uma embaixatriz do arrasta-pé e natural da terra dos Suassunas. O antigo chamego dos passeios da juventude.

 

Nos sonhos, tentava em vão abafar o nome dela, cuja beleza me atraía para a beira do Atlântico morno e azul.  

 

É mais velha, amena, ótima em cuidar da pele que eu habito e conservada como uma brisa leve e molhada.   

 

Afinal, não aguentei, fui um covarde, e bem sabe onde eu estava...  

Seus cartões postais que me enviou? Não preenchiam a saudade, ainda que nos braços da outra.

 

No fim, são dois amores que vivem em mim: João Pessoa, na Paraíba, antigo affaire, e você, Teresina, no Piauí, nome em tributo à imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon.  

 

 (*) cronista e contista.

 











segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Ampulheta


 

                                           Ampulheta

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

- Pai, ganhei um presente do vô!

 

Ele mal consumiu um pedaço do tempo, o gogó azeitado de Brahma Chopp, e apreciando as espumas se fundindo na caneca do Bar do Amarelinho, onde era freguês de segunda a quinta à noite.

 

Às sextas, a partir das quatorze horas até meia-noite de domingo, ele se tornava um britânico com dedicação integral e um tipo de diretor substituto do estabelecimento (principal morada, no olhar desgostoso da família).

 

- Deixa para lá - falou o jovem, retraindo os ombros e afastando-se, como aqueles já órfãos de pais vivos.

 

Dez, vinte, trinta, quarenta e, de súbito, metade de século se passaram, imperceptíveis, em especial para quem não possui o olhar aguçado de poeta, escritor, filósofo ou um sábio sem diploma.

 

Ah, o tempo. E, como escreveu Antônio Maria, “A gente assiste ao cigarro se gastando, ouve os carrilhões da vizinhança, vê a chegada das noites e não se percebe de que tudo isso é o tempo, andando. ”

 

O pai, antes uma figura boêmia, agora se arrasta do quarto para a sala, sem esquecer de tomar os bons tragos do licor de jenipapo da cristaleira, lembrança da velha felicidade gustativa.  

 

A artrite tornou-se o novo matrimônio do homem, cujos ponteiros já giraram muito. Outra doença crônica que provocava espasmos pelo corpo. Caixa de muitos comprimidos do lado da escrivaninha.

 

No Bar do Amarelinho, as fotografias desbotadas e sorrisos amarelos resistiam nas paredes descascadas; no assoalho, manchas de salivas, vômitos e gotas ocultas do sangue das brigas.

 

Com portas apodrecidas desde a derradeira gota de álcool e os fígados dos poucos amigos que lhe restaram.

 

          E o tempo, embrulhado há décadas? De pouca estima para o pai.

 

          Até que se sentaram no sofá, amigos num afeto distante. Quatro fotografias no álbum do filho contam o indescritível pelas letras: formatura, primeiro dia de trabalho, casamento e primeiro neto, ausências desavergonhadas.

 

          Cinquenta anos se fizeram numa frase:

 

          - Pai, ganhei o presente do vô!

 

          O pai, com sinais de catarata, apontou para o objeto embrulhado num papel já com jeito de pão velho, pedindo que o filho o descrevesse.

 

          - É uma ampulheta, pai.

 

          Após um silêncio de escultura, murmurou com voz de confessionário:

 

           - Era um presente do seu avô. Ele me deu antes do meu casamento. Nunca dei atenção. Apertando-a com a pressa do tempo que nunca contornará.

 

(*) cronista e contista.

 

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

*O choro dos sofridos


 

                            *O choro dos sofridos

 

O som das lástimas e lágrimas d´almas sofridas ecoam sobre essas terras,

 

Os cheiros amargos das cinzas invadem tuas narinas,

 

Oh, pobre alma desamparada com sorriso anulado,

 

A semente da discórdia está plantada e destruindo tudo aquilo que vós lembrais tua antiga felicidade,

 

Espero que de mim a guerra tenha a piedade e me permitas sair do teu horror.

 

 * Beatriz Stumpf Amorim Leite

segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Irmandade Panteísta

 


Irmandade Panteísta

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Na cabeceira, onde silencio a aflita alma, o sono insone navega traiçoeiro noite afora.

 

Estalagmites do tempo badalam e acordam o medo do hostil crepúsculo ao me deitar.

 

Da janela, ouvidos moucos percebem a irmã Terra num silencioso grito louco.

 

E lá no horizonte o Vento, irmão vagante, errante, dobra e quebra as escarpas das falésias.

 

Na garganta, um apavorante uivo faz o solitário cão gritar de temor.

 

Com oferendas pagãs, invoco o espírito do triste caburé tricotar um canto de valsagia.

 

Em vigília, Tupã e Mãe Lua, ainda sonolentos, onipresentes, assistem o tempo se desenrolar e desmoronar sobre mim.

 

Apoio o ouvido numa concha de búzios, a ansiar o irmão Mar.

 

E saio do loco-oco-vazio.

 

Pouco logo, velejo pelo baile de ondas, espumas e areias.

 

Da concha, assisto o Sol sair do feitiço da irmã Lua.

 

Noto a alma tintilar com os cristais do penhasco à beira-mar.

 

Enfim, ronco, ronco, rolado nas ondas paradas.

 

(*) cronista e contista.