Fonte: Google
Reconciliação
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Ah,
Teresa Cristina, como poderia esquecer nossos primeiros dias? Aqueles quarenta
graus ainda seguem. Nada além de nós importava; a juventude e os hormônios nos
levavam em passo acelerado ao clímax.
Aliás,
aprendi que o envelhecer traz mudanças na tolerância ao nosso ambiente. Sabe,
não pudemos evitar o ciclo marcado por nossos lagos secando, ipês-amarelos
floridos, agora murchos, e jardins que se tornaram cinzas.
Os
passeios ao ar livre perderam o encanto. Nossa relação se tornou árida.
Lembro-me
daquele primeiro beijo no banco da praça Pedro II, com o antigo e fresco pôr do
sol conosco brincando num tempo perdido.
E
os passeios coladinhos? Só nos raros dias amenos, pois os quase cinquenta anos
afetaram o meu vigor.
Você,
porém, continua espantosamente fogosa, ardente e uma Capitu moderna, não é?
Sim,
por causa do nosso desgaste, cheguei a cogitar nunca mais te ver. Eu
sei que suspeitava do motivo...
Ela,
aquela Pessoa que não é pessoa, moradora juntinha da Serra da Borborema, uma
embaixatriz do arrasta-pé e natural da terra dos Suassunas. O antigo chamego
dos passeios da juventude.
Nos
sonhos, tentava em vão abafar o nome dela, cuja beleza me atraía para a beira
do Atlântico morno e azul.
É
mais velha, amena, ótima em cuidar da pele que eu habito e conservada como uma
brisa leve e molhada.
Afinal,
não aguentei, fui um covarde, e bem sabe onde eu estava...
Seus
cartões postais que me enviou? Não preenchiam a saudade, ainda que nos braços
da outra.
No
fim, são dois amores que vivem em mim: João Pessoa, na Paraíba, antigo affaire, e você, Teresina, no Piauí,
nome em tributo à imperatriz Teresa Cristina Maria de
Bourbon.
(*) cronista e contista.


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