segunda-feira, 20 de novembro de 2023

Reconciliação

 


                                                                  Fonte: Google


Reconciliação 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite  

 

Ah, Teresa Cristina, como poderia esquecer nossos primeiros dias? Aqueles quarenta graus ainda seguem. Nada além de nós importava; a juventude e os hormônios nos levavam em passo acelerado ao clímax.

 

Aliás, aprendi que o envelhecer traz mudanças na tolerância ao nosso ambiente. Sabe, não pudemos evitar o ciclo marcado por nossos lagos secando, ipês-amarelos floridos, agora murchos, e jardins que se tornaram cinzas.

  

Os passeios ao ar livre perderam o encanto. Nossa relação se tornou árida. 

 

Lembro-me daquele primeiro beijo no banco da praça Pedro II, com o antigo e fresco pôr do sol conosco brincando num tempo perdido.  

 

E os passeios coladinhos? Só nos raros dias amenos, pois os quase cinquenta anos afetaram o meu vigor. 

 

Você, porém, continua espantosamente fogosa, ardente e uma Capitu moderna, não é?  

 

Sim, por causa do nosso desgaste, cheguei a cogitar nunca mais te ver.  Eu sei que suspeitava do motivo...  

 

Ela, aquela Pessoa que não é pessoa, moradora juntinha da Serra da Borborema, uma embaixatriz do arrasta-pé e natural da terra dos Suassunas. O antigo chamego dos passeios da juventude.

 

Nos sonhos, tentava em vão abafar o nome dela, cuja beleza me atraía para a beira do Atlântico morno e azul.  

 

É mais velha, amena, ótima em cuidar da pele que eu habito e conservada como uma brisa leve e molhada.   

 

Afinal, não aguentei, fui um covarde, e bem sabe onde eu estava...  

Seus cartões postais que me enviou? Não preenchiam a saudade, ainda que nos braços da outra.

 

No fim, são dois amores que vivem em mim: João Pessoa, na Paraíba, antigo affaire, e você, Teresina, no Piauí, nome em tributo à imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon.  

 

 (*) cronista e contista.

 











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