segunda-feira, 13 de novembro de 2023

Ampulheta


 

                                           Ampulheta

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

- Pai, ganhei um presente do vô!

 

Ele mal consumiu um pedaço do tempo, o gogó azeitado de Brahma Chopp, e apreciando as espumas se fundindo na caneca do Bar do Amarelinho, onde era freguês de segunda a quinta à noite.

 

Às sextas, a partir das quatorze horas até meia-noite de domingo, ele se tornava um britânico com dedicação integral e um tipo de diretor substituto do estabelecimento (principal morada, no olhar desgostoso da família).

 

- Deixa para lá - falou o jovem, retraindo os ombros e afastando-se, como aqueles já órfãos de pais vivos.

 

Dez, vinte, trinta, quarenta e, de súbito, metade de século se passaram, imperceptíveis, em especial para quem não possui o olhar aguçado de poeta, escritor, filósofo ou um sábio sem diploma.

 

Ah, o tempo. E, como escreveu Antônio Maria, “A gente assiste ao cigarro se gastando, ouve os carrilhões da vizinhança, vê a chegada das noites e não se percebe de que tudo isso é o tempo, andando. ”

 

O pai, antes uma figura boêmia, agora se arrasta do quarto para a sala, sem esquecer de tomar os bons tragos do licor de jenipapo da cristaleira, lembrança da velha felicidade gustativa.  

 

A artrite tornou-se o novo matrimônio do homem, cujos ponteiros já giraram muito. Outra doença crônica que provocava espasmos pelo corpo. Caixa de muitos comprimidos do lado da escrivaninha.

 

No Bar do Amarelinho, as fotografias desbotadas e sorrisos amarelos resistiam nas paredes descascadas; no assoalho, manchas de salivas, vômitos e gotas ocultas do sangue das brigas.

 

Com portas apodrecidas desde a derradeira gota de álcool e os fígados dos poucos amigos que lhe restaram.

 

          E o tempo, embrulhado há décadas? De pouca estima para o pai.

 

          Até que se sentaram no sofá, amigos num afeto distante. Quatro fotografias no álbum do filho contam o indescritível pelas letras: formatura, primeiro dia de trabalho, casamento e primeiro neto, ausências desavergonhadas.

 

          Cinquenta anos se fizeram numa frase:

 

          - Pai, ganhei o presente do vô!

 

          O pai, com sinais de catarata, apontou para o objeto embrulhado num papel já com jeito de pão velho, pedindo que o filho o descrevesse.

 

          - É uma ampulheta, pai.

 

          Após um silêncio de escultura, murmurou com voz de confessionário:

 

           - Era um presente do seu avô. Ele me deu antes do meu casamento. Nunca dei atenção. Apertando-a com a pressa do tempo que nunca contornará.

 

(*) cronista e contista.

 

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