Irmandade Panteísta
*Fabrício
Carvalho Amorim Leite
Na cabeceira, onde silencio a aflita
alma, o sono insone navega traiçoeiro noite afora.
Estalagmites do tempo badalam e
acordam o medo do hostil crepúsculo ao me deitar.
Da janela, ouvidos moucos percebem a
irmã Terra num silencioso grito louco.
E lá no horizonte o Vento, irmão
vagante, errante, dobra e quebra as escarpas das falésias.
Na garganta, um apavorante uivo faz o
solitário cão gritar de temor.
Com oferendas pagãs, invoco o
espírito do triste caburé tricotar um canto de valsagia.
Em vigília, Tupã e Mãe Lua, ainda
sonolentos, onipresentes, assistem o tempo se desenrolar e desmoronar sobre
mim.
Apoio o ouvido numa concha de búzios,
a ansiar o irmão Mar.
E saio do loco-oco-vazio.
Pouco logo, velejo pelo baile de
ondas, espumas e areias.
Da concha, assisto o Sol sair do
feitiço da irmã Lua.
Noto a alma tintilar com os cristais
do penhasco à beira-mar.
Enfim, ronco, ronco, rolado nas ondas
paradas.
(*) cronista
e contista.

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