segunda-feira, 6 de novembro de 2023

Irmandade Panteísta

 


Irmandade Panteísta

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Na cabeceira, onde silencio a aflita alma, o sono insone navega traiçoeiro noite afora.

 

Estalagmites do tempo badalam e acordam o medo do hostil crepúsculo ao me deitar.

 

Da janela, ouvidos moucos percebem a irmã Terra num silencioso grito louco.

 

E lá no horizonte o Vento, irmão vagante, errante, dobra e quebra as escarpas das falésias.

 

Na garganta, um apavorante uivo faz o solitário cão gritar de temor.

 

Com oferendas pagãs, invoco o espírito do triste caburé tricotar um canto de valsagia.

 

Em vigília, Tupã e Mãe Lua, ainda sonolentos, onipresentes, assistem o tempo se desenrolar e desmoronar sobre mim.

 

Apoio o ouvido numa concha de búzios, a ansiar o irmão Mar.

 

E saio do loco-oco-vazio.

 

Pouco logo, velejo pelo baile de ondas, espumas e areias.

 

Da concha, assisto o Sol sair do feitiço da irmã Lua.

 

Noto a alma tintilar com os cristais do penhasco à beira-mar.

 

Enfim, ronco, ronco, rolado nas ondas paradas.

 

(*) cronista e contista.

 


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