segunda-feira, 2 de dezembro de 2024

Sarça ardente

 

Sarça ardente

Fabrício Carvalho Amorim Leite*

Nestes dias, coube-me, pela ordem natural das cousas, a tarefa de preparar os objetos deixados por meu pai – um gesto que, dizem, marca o verdadeiro amadurecimento do homem: encarar, de frente, a morte do próprio pai.

Um inventário dos momentos deixados: aquele número de telefone era ele por décadas – todas as noites, falávamos. O jeito de sentar-se na velha cadeira desbotada, sempre a predileta, era inconfundível. A xícara de café com que ele me servia ainda estava lá, junto às inseparáveis boinas. Cada objeto, agora órfão, parecia aguardar um novo destino.

O luto é estranho: silencia o mundo, mas não aquieta as perguntas. Na quietude daquela casa, compreendi que os objetos são fragmentos da personalidade dos que se foram – pedaços deixados como testemunhas de uma ausência.

O que fazer com os sapatos que ele tanto gostava, seus discos, as fotos escondidas no fundo do armário? A culpa sussurrante insistia e assistia, penosa, enquanto encaixava os objetos, sentindo que, a cada gesto, apagava partes dele. E o silêncio? Apenas cúmplice do luto, pesou mais que a ausência. Aquela mania de criança de revirar as coisas perdeu, ali, sua graça.

Na missa, encontrei um breve consolo do peso das coisas deixadas. O turíbulo balançava suavemente, espalhando o aroma do incenso, enquanto as palavras do padre ecoavam: “Não ajunteis tesouros na terra”. Perdi o olhar no fogo que brincava no turíbulo, e uma prece, sem aviso, escapou: Afaste-se, saudade, sarça ardente, fogo que nunca se apaga. Mas, ao sair, o vazio ainda se agarrava a mim, como uma sombra que não se deixa abandonar.

Ao cruzar a velha casa, aquele alívio efêmero dissolveu-se, como se a saudade encontrasse seu lugar entre os cômodos vazios. O Nada ainda me buscava. Na sala, despojada de móveis, permaneciam os vestígios de uma história partida.

O sol atravessava as janelas descortinadas, despejando luz sobre telas, ornamentos e fotografias empilhadas às pressas, como se tentassem disfarçar a coisa nenhuma que tudo comia.

Meu maior temor era que o meu pai se apagasse da memória, submerso no passado e deixando o presente desfigurado. Besteira! Como quem se agarra a uma âncora, apanhei um retrato – aquele instante para sempre alegre. O resto... foi confiado ao mundo.

Sarça ardente, ardente... ardente.

(*) contista e cronista.

 


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