Memento Mori: Reflexões de um Sobrevivente do Câncer
*Fabrício
Carvalho Amorim Leite
Memento Mori: Reflexões de um Sobrevivente do Câncer
*Fabrício
Carvalho Amorim Leite
Há alguns anos, em meio às minhas andanças matinais, avistei uma
frase curiosa pichada em um alto muro de um palácio, em letras características:
'dinheiro é só uma folha de papel impresso'. Quase tombei quando vi tamanha
afronta a Mamon! Que absurdo! Ou será que era uma profunda verdade oculta na
depredação?
No entanto, só voltei a pensar sobre aquela frase que
relativizava o dinheiro e os bens materiais anos após a visita inoportuna de um
hóspede indesejado chamado câncer. Ah, uma presença não convidada que modificou
a minha vida e a forma como eu via o dinheiro.
Como a vida nos prega surpresas! No início de 2014, fui
diagnosticado com uma forma agressiva de tumor. Foi uma mudança radical de
vida, com muitos exames e cirurgias, e, por fim, a quimioterapia.
Sim, de repente, surge uma pedra no meio do caminho -, aquela, a
do poeta Drummond. E então, depois de muito caminhar, a gente tira a pedra do
sapato e a guarda como lembrança. Como eu, que guardei uma pecinha do aparelho
que me ministrava os remédios salvadores durante o tratamento do câncer.
Guardei em uma pequena caixa e, à maneira dos estoicos, 'Memento
Mori': lembre-se de que você vai morrer.
Agora, após curado, como essa doença deu uma densa
ressignificação ao meu modo de pensar, bem, isso é assunto para os entendedores.
Só sei que mudou, e muito.
Claro que nenhuma pessoa em sã consciência desejaria uma doença
grave no meio do caminho, porém o fato é que, apesar de tudo, essa experiência
me transformou.
E onde o dinheiro entra em toda essa história? Pois é, acredite
ou não, assim como o câncer, a cobiça por dinheiro ou bens materiais também
pode ser uma doença, gerando metástases na vida de muitas pessoas.
Viver com menos do que se ganha? Os conselheiros de planejamento
financeiro dirão que sim, é possível. No entanto, na prática, com este
bombardeio diurno de estímulos ao consumismo, controlar os impulsos torna-se
quase como correr uma interminável maratona.
O dinheiro, assim como o consumismo, é um mestre no encanto,
atraindo-nos como as sereias de Homero, que levavam os marinheiros ao fundo do
mar, ou até mesmo ao fundo de um poço.
E antes que eu seja classificado como um anarquista, ou alguém
desapegado que não se importa com dinheiro, deixe-me esclarecer: não é bem
assim. A questão é que, muitas vezes, a mente fica tão fascinada com cifrões
que a vida parece se concentrar apenas na competição, como se fosse o jogo
Banco Imobiliário.
Ao pesquisar, encontrei grandes pontos positivos do jogo: ensina
sobre negócios, negociação e gestão de dinheiro. Isso é muito bom.
No entanto, neste mundo obcecado por 'quanto você possui?' e
'quanto custa?', tudo é monetizado, cunhado e amoedado: desde os momentos com a
família, os sentimentos e os relacionamentos, até aqueles instantes simples e
preciosos que passamos com nossos filhos e amigos.
E o avarento, uma das facetas da doença do dinheiro? Ah, esses
são uma história à parte, capaz de arrancar tanto risos quanto perpétuos dós.
Os vejo como pessoas sofridas. Bastante padecidas.
Pois bem, há um personagem notório taxado como Nozinho. Apesar
de sua riqueza material, sua extrema miséria instintiva lhe dá a aparência de
um doente crônico: pele amarelada e olhos que lembram os de um peixe morto.
Não sei se é verdade ou mentira, mas contam que ele, sentado em
seu banquinho, colhia com destreza cirúrgica os piolhos e carrapatos mais
rechonchudos de seus bovinos para alimentar suas galinhas.
Ele parecia ter um prazer perto do sensual em reutilizar restos
de sabonetes, esmagando-os e transformando-os em um único volume, como todos os
seus pão-durismos.
Em outra situação, dizia-se que ele possuía um poço artesiano
rústico. E, de repente, começou a suspeitar que alguém estivesse furtando sua
água. Então, ordenou que a maior vara de bambu da região fosse utilizada para
medir, diariamente, o nível da preciosa água subterrânea!
E Nozinho é o dono do palácio do alto muro pichado. Um homem
melancólico no seu escuro castelo de solidão.
Ele, do alto de uma de suas torres, com um ar de autoridade,
sempre me fitava passar.
A pichação foi apagada pelo doente dono. Desconfio que ele tenha
levado para o lado pessoal. Mesmo assim, agora com saúde, persisto em minha
rotina de passar diante do muro durante minhas caminhadas matinais.
Não importa mais, pois, a frase agora está graciosamente
emoldurada na parede de minha mente.
(*) cronista e contista.

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