Túmulo de memórias
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Despertei.
A escuridão profunda e amedrontadora me envolvia. O aroma de madeira
envernizada e recém cortada tomou meus sentidos, desencadeando uma série de
espirros que lançaram os algodões colocados inexplicavelmente no meu nariz,
consequência da minha antiga alergia.
O
local era estreito, com o crepúsculo ainda agitando meu coração. Mesmo assim,
tentei levantar meu braço direito para alongá-lo e curar a minha câimbra, mas
algo sólido a centímetros acima do meu corpo impediu-me.
Sons
abafados de passos retumbavam acima de mim. Golpeei vorazmente a tampa sólida
do estranho cárcere, bradando por ajuda. Mas nada adiantou.
Enquanto
isso, um suor fétido de desespero ensopou meu frio corpo, seguido por uma
respiração apressada, inspirando pelo nariz e exalando pela boca. Onde estava?
Minhas mãos trêmulas procuraram os limites do confinamento, revelando um
formato de um retângulo familiar.
Meu
desafeto poderia ser tão cruel a ponto de me trancar vivo em um caixão de
madeira? Não, isso não tinha lógica. Mesmo como um servidor público de certa
posição hierárquica, sem fortuna e com uma única ambição de ver meus filhos e
meus netos crescerem, eu não esperava ser o alvo de qualquer represália na
vida.
Vasculhando
às memórias, já ofendi pessoas, mas, jamais ao ponto de persegui-las.
Trabalhava em um setor de atendimento ao público e, confesso que perdi a calma
com alguns. No entanto, nunca fui ameaçado ou adverti alguma pessoa em público.
Em casa, perante a família, era distante e frio, bebia muito. Ou seja, tinha
meus defeitos e pecados, confesso.
Outra
vez, explorei o cárcere pelo tato. Meus pés jaziam descalços como se estivessem
descansando numa cama, apesar de uma espécie de manto que me cobria parcialmente
até os calcanhares. Com às mãos deslizei pelo corpo suado até descobrir um
objeto metálico com rodas e uma alavanca.
Movimentei
a pequena maçaneta e um som íntimo e agudo de passado me deteve. Reconheci
imediatamente o meu velho carro de brinquedo, lembrança de minha falecida avó
em meu décimo aniversário, guardado num baú com carinho por seis décadas.
Regressando,
lembrei do dia em que uma dor de cabeça lacerante evoluiu para um acidente
vascular cerebral. Também recordei do meu último desejo: que o brinquedo, tão
querido amuleto, me acompanhasse na jornada para o outro lado. Teria eu
continuado a viver?
Imediatamente,
como outro fluxo de pensamentos do passado, surgiu-me a visão dos aparelhos do
hospital, a minha esposa e filhos visitando-me nos muitos dias de intubação. E
os jalecos brancos? Muitos, agitando com frieza protocolos e medicamentos
paliativos. Ouvi o que pude, no intervalo entre às alucinações e a razão.
Na
prisão de madeira, perguntei-me outra vez se fui enterrado vivo e quem seria o autor.
A confusão se misturou à revolta, e o ciclo de agonia reiniciou.
Depois
de um tempo incontável de batalha interna, a viva aparição de minha avó e o
amuleto de infância trouxeram um vislumbre de um canto sereno. A aflição foi
substituída por uma paz raramente experimentada na Terra.
Inexplicavelmente,
o meu corpo começou a desatar-se da mortalha. Uma luz serena e convidativa se
revelou, afugentando os pensamentos negativos e preenchendo o meu ser de
tranquilidade. O céu, antes denso, se abriu em um tom azul vibrante e límpido.
Na
saída do planetário, de cima, pude testemunhar os meus restos e túmulo lado a
lado de um grande sepulcro barroco do ex-governador da província, como se o
Cemitério da Igualdade desse um recado sobre o fim de todos. E a minha família
mais conformada e seguindo no viver. O trabalho, tedioso e desumanizado, como
sempre. Vida que segue. Refleti.
A
passagem foi rápida, para minha gratidão. Sobrevivi, em uma vida além da vida.
Ganhei um ingresso da sorte. Reencontrei o prazer de brincar com aquele
carrinho sob o olhar plácido e orgulhoso de minha avó. E regressei ao antigo
mundo no qual a imortalidade e a alegria são irmãs inseparáveis.
O
fim é o começo.
(*) cronista e contista.

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