sábado, 24 de junho de 2023

Túmulo de memórias


 

Túmulo de memórias

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Despertei. A escuridão profunda e amedrontadora me envolvia. O aroma de madeira envernizada e recém cortada tomou meus sentidos, desencadeando uma série de espirros que lançaram os algodões colocados inexplicavelmente no meu nariz, consequência da minha antiga alergia.

 

O local era estreito, com o crepúsculo ainda agitando meu coração. Mesmo assim, tentei levantar meu braço direito para alongá-lo e curar a minha câimbra, mas algo sólido a centímetros acima do meu corpo impediu-me.

 

Sons abafados de passos retumbavam acima de mim. Golpeei vorazmente a tampa sólida do estranho cárcere, bradando por ajuda. Mas nada adiantou.

 

Enquanto isso, um suor fétido de desespero ensopou meu frio corpo, seguido por uma respiração apressada, inspirando pelo nariz e exalando pela boca. Onde estava? Minhas mãos trêmulas procuraram os limites do confinamento, revelando um formato de um retângulo familiar.

 

Meu desafeto poderia ser tão cruel a ponto de me trancar vivo em um caixão de madeira? Não, isso não tinha lógica. Mesmo como um servidor público de certa posição hierárquica, sem fortuna e com uma única ambição de ver meus filhos e meus netos crescerem, eu não esperava ser o alvo de qualquer represália na vida.

 

Vasculhando às memórias, já ofendi pessoas, mas, jamais ao ponto de persegui-las. Trabalhava em um setor de atendimento ao público e, confesso que perdi a calma com alguns. No entanto, nunca fui ameaçado ou adverti alguma pessoa em público. Em casa, perante a família, era distante e frio, bebia muito. Ou seja, tinha meus defeitos e pecados, confesso.

 

Outra vez, explorei o cárcere pelo tato. Meus pés jaziam descalços como se estivessem descansando numa cama, apesar de uma espécie de manto que me cobria parcialmente até os calcanhares. Com às mãos deslizei pelo corpo suado até descobrir um objeto metálico com rodas e uma alavanca.

 

Movimentei a pequena maçaneta e um som íntimo e agudo de passado me deteve. Reconheci imediatamente o meu velho carro de brinquedo, lembrança de minha falecida avó em meu décimo aniversário, guardado num baú com carinho por seis décadas.

 

Regressando, lembrei do dia em que uma dor de cabeça lacerante evoluiu para um acidente vascular cerebral. Também recordei do meu último desejo: que o brinquedo, tão querido amuleto, me acompanhasse na jornada para o outro lado. Teria eu continuado a viver?

 

Imediatamente, como outro fluxo de pensamentos do passado, surgiu-me a visão dos aparelhos do hospital, a minha esposa e filhos visitando-me nos muitos dias de intubação. E os jalecos brancos? Muitos, agitando com frieza protocolos e medicamentos paliativos. Ouvi o que pude, no intervalo entre às alucinações e a razão.

 

Na prisão de madeira, perguntei-me outra vez se fui enterrado vivo e quem seria o autor. A confusão se misturou à revolta, e o ciclo de agonia reiniciou.

 

Depois de um tempo incontável de batalha interna, a viva aparição de minha avó e o amuleto de infância trouxeram um vislumbre de um canto sereno. A aflição foi substituída por uma paz raramente experimentada na Terra.

 

Inexplicavelmente, o meu corpo começou a desatar-se da mortalha. Uma luz serena e convidativa se revelou, afugentando os pensamentos negativos e preenchendo o meu ser de tranquilidade. O céu, antes denso, se abriu em um tom azul vibrante e límpido.

 

Na saída do planetário, de cima, pude testemunhar os meus restos e túmulo lado a lado de um grande sepulcro barroco do ex-governador da província, como se o Cemitério da Igualdade desse um recado sobre o fim de todos. E a minha família mais conformada e seguindo no viver. O trabalho, tedioso e desumanizado, como sempre. Vida que segue. Refleti.

 

A passagem foi rápida, para minha gratidão. Sobrevivi, em uma vida além da vida. Ganhei um ingresso da sorte. Reencontrei o prazer de brincar com aquele carrinho sob o olhar plácido e orgulhoso de minha avó. E regressei ao antigo mundo no qual a imortalidade e a alegria são irmãs inseparáveis.

 

O fim é o começo.

 

(*) cronista e contista.


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