O estranho
jeito como nós imitamos a natureza
Fabrício Carvalho Amorim Leite
(*)
Em um
domingo, minha filha, com uma curiosidade insaciável, fez perguntas que me despertaram:
-
Papai, você sabe o que é mimetismo?
- E a
diferença entre mimetismo e camuflagem, você sabe? Por que existem?
Embora
surpreso, senti-me responsável por responder, contudo, orgulhoso de seu
interesse. Sem sinal no celular para uma busca rápida, achei por bem enfrentar
suas indagações por conta própria. Recorri a um antigo livro de biologia,
esquecido em canto da casa do sítio, e à minha antiga observação atenta da natureza.
Em
inglês, o mimetismo equivale ao fenômeno do “mimicry”, que se alude à imitação
de uma espécie por outra, o que nos oferece uma perspectiva intrigante de como
imitamos a natureza nas nossas vidas. Foi,
por isso, que mergulhei no universo interessante do mimetismo – estratégia de
sobrevivência empregada por várias espécies.
Recordei-me
de um tenso encontro com uma cobra coral em uma caminhada. Estava ela
despontando a poucos passos, com vivas cores, sua ameaça: - não chegue perto de
mim. Seria verdadeira ou falsa? Recuei cautelosamente, observando a cobra a uma
distância segura. Ela serviu como uma lembrança da natureza implacável e sábia
quando se trata de sobrevivência.
Ao
estudar mais sobre o assunto, descobri que, no mimetismo, um organismo imita o
outro, enquanto na camuflagem, um ser se adapta ao seu ambiente para se
disfarçar.
Depressa,
lembrei-me do camaleão habitante da árvore de tamarindo em frente à casa do
sítio. Este camaleão, particularmente, o admiro, por ser um professor na
camuflagem. Ele assume o verde das folhas da tamarindeira, ou o cinza de seus
galhos, inflando o seu corpo e agitando sua longa cauda diante qualquer sinal
de perigo. É, sem dúvida, um mestre no disfarce.
E nós,
humanos? Até que ponto somos imitadores? Lembrei-me da teoria mimética do
desejo, segundo a qual desejamos as coisas porque os outros também as desejam.
Ou
seja, nossa aptidão ao mimetismo é tamanha que, com frequência e sem notar,
replicamos comportamentos e ambições de outros, como a sinfonia coordenada dos
sapos e rãs, na peça Lagos dos Cisnes, na tentativa de cooperação social das
abelhas ou, de forma mais superficial, o carro novo do vizinho.
A
biomimétrica – cujo nome nunca tinha visto antes – é a prática de criar
invenções e tecnologias inspiradas na natureza, ou uma forma de imitação sem a imitação
pura de outras espécies, mas pela inspiração.
Por
exemplo, quando os engenheiros projetam um avião, não reproduzem totalmente as
aves para criar uma máquina para voar, mas como os pássaros usam as asas para
voarem. De maneira parecida, um ser humano poderia se utilizar da estratégia da
camuflagem do gato maracajá que um humano pode se utilizar para escapar de
perigo iminente na floresta.
Entretanto,
sempre há um “porém”. Em geral, plagiamos os outros sem entender o motivo por
trás de suas condutas harmoniosas. Observamos as cigarras, exuberantes em suas
cantorias reprodutivas, os pavões e araras, ostentando suas plumas coloridas, e
do maracajá, camuflando-se de predadores.
Contraditoriamente, impulsionados pela
competição e interminável ambição financeira, arrancamos, sem clemência, as
belas plumas dos pavões e das araras, a magnífica pele do maracajá e devastamos
as florestas onde as cigarras cantam. Uma estranha maneira de
imitação-destruição.
Enquanto isso, os joões-de-barro, arquitetos
exaltados por poetas e músicos, demonstram a simplicidade e a engenhosidade com
suas casas de barro, livres das preocupações materiais ou da ostentação que
tanto nos afligem.
E quando o ser humano cobiça o lar dos
joões-de-barro para transformá-lo em uma lembrança de viagem? Eles, em resposta, cantam para o Homem:
- Fique tranquilo, Sr. Homem, se for
necessário, podemos construir outra casa do outro lado do rio, sem nenhuma
preocupação material ou financeira – gorjeiam os pássaros, em seu completo
desapego e liberdade.
(*) cronista e contista.


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