quarta-feira, 14 de junho de 2023

O estranho jeito como nós imitamos a natureza

 



O estranho jeito como nós imitamos a natureza

 

Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)

Em um domingo, minha filha, com uma curiosidade insaciável, fez perguntas que me despertaram: 

 

- Papai, você sabe o que é mimetismo?

 

- E a diferença entre mimetismo e camuflagem, você sabe? Por que existem?

 

Embora surpreso, senti-me responsável por responder, contudo, orgulhoso de seu interesse. Sem sinal no celular para uma busca rápida, achei por bem enfrentar suas indagações por conta própria. Recorri a um antigo livro de biologia, esquecido em canto da casa do sítio, e à minha antiga observação atenta da natureza.

 

Em inglês, o mimetismo equivale ao fenômeno do “mimicry”, que se alude à imitação de uma espécie por outra, o que nos oferece uma perspectiva intrigante de como imitamos a natureza nas nossas vidas.  Foi, por isso, que mergulhei no universo interessante do mimetismo – estratégia de sobrevivência empregada por várias espécies.

 

Recordei-me de um tenso encontro com uma cobra coral em uma caminhada. Estava ela despontando a poucos passos, com vivas cores, sua ameaça: - não chegue perto de mim. Seria verdadeira ou falsa? Recuei cautelosamente, observando a cobra a uma distância segura. Ela serviu como uma lembrança da natureza implacável e sábia quando se trata de sobrevivência.

 

Ao estudar mais sobre o assunto, descobri que, no mimetismo, um organismo imita o outro, enquanto na camuflagem, um ser se adapta ao seu ambiente para se disfarçar.

 

Depressa, lembrei-me do camaleão habitante da árvore de tamarindo em frente à casa do sítio. Este camaleão, particularmente, o admiro, por ser um professor na camuflagem. Ele assume o verde das folhas da tamarindeira, ou o cinza de seus galhos, inflando o seu corpo e agitando sua longa cauda diante qualquer sinal de perigo. É, sem dúvida, um mestre no disfarce.

 

E nós, humanos? Até que ponto somos imitadores? Lembrei-me da teoria mimética do desejo, segundo a qual desejamos as coisas porque os outros também as desejam.

 

Ou seja, nossa aptidão ao mimetismo é tamanha que, com frequência e sem notar, replicamos comportamentos e ambições de outros, como a sinfonia coordenada dos sapos e rãs, na peça Lagos dos Cisnes, na tentativa de cooperação social das abelhas ou, de forma mais superficial, o carro novo do vizinho.

 

A biomimétrica – cujo nome nunca tinha visto antes – é a prática de criar invenções e tecnologias inspiradas na natureza, ou uma forma de imitação sem a imitação pura de outras espécies, mas pela inspiração.

 

Por exemplo, quando os engenheiros projetam um avião, não reproduzem totalmente as aves para criar uma máquina para voar, mas como os pássaros usam as asas para voarem. De maneira parecida, um ser humano poderia se utilizar da estratégia da camuflagem do gato maracajá que um humano pode se utilizar para escapar de perigo iminente na floresta.

 

Entretanto, sempre há um “porém”. Em geral, plagiamos os outros sem entender o motivo por trás de suas condutas harmoniosas. Observamos as cigarras, exuberantes em suas cantorias reprodutivas, os pavões e araras, ostentando suas plumas coloridas, e do maracajá, camuflando-se de predadores.

 

Contraditoriamente, impulsionados pela competição e interminável ambição financeira, arrancamos, sem clemência, as belas plumas dos pavões e das araras, a magnífica pele do maracajá e devastamos as florestas onde as cigarras cantam. Uma estranha maneira de imitação-destruição.

 

Enquanto isso, os joões-de-barro, arquitetos exaltados por poetas e músicos, demonstram a simplicidade e a engenhosidade com suas casas de barro, livres das preocupações materiais ou da ostentação que tanto nos afligem.

 

E quando o ser humano cobiça o lar dos joões-de-barro para transformá-lo em uma lembrança de viagem?  Eles, em resposta, cantam para o Homem:

 

- Fique tranquilo, Sr. Homem, se for necessário, podemos construir outra casa do outro lado do rio, sem nenhuma preocupação material ou financeira – gorjeiam os pássaros, em seu completo desapego e liberdade.  

 

(*) cronista e contista.

 

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