Curva do Diabo
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
A chave girou e acelerei, enquanto meu braço
esquerdo, balançando para fora, ondulava ao sopro da estrada. O cheiro de terra
molhada depois de vários meses de seca na peculiar Caatinga invadiu o carro, marcando
sua bem-vinda presença.
O para-brisas filmou várias placas: Volta da
Jurema, Da Raposa, Curva da Saudade e Curva das Escolhas. Nomes impressos na
minha cabeça.
Estrada adentro, deparei-me com um quebra-molas:
blasfemei do engenheiro cujo objetivo principal foi reduzir o vento fresco
vindo da janela.
Sacanagem!
Vou ter que engatar outra vez a primeira marcha, pensei em voz alta.
Numa parada rústica no meio do nada, estava a jovem
mulher com aquele vestido desenvergonhado e vermelho. E como uma cereja, aquela
boca carnuda e pequena, - o que a apelidei afetuosamente de boca de ilhós.
Seria eu o amante acidental?
Mandou-me beijos. Acelerei deixando uma nuvem de
poeira rubra para trás.
Passei por postos de gasolina, com seus cafés
recém-coados, bolos de caroços e de pubas.
Um carro à beira da via com um capô aberto,
galhos-quebrados e um enigma. Parar e ajudar o próximo, ou seguir viagem?
Uma depressão e outras. Altos e baixos.
Desacelerando e acelerando, ultrapassei com cuidado
um caminhão cheio de cores e faixas vibrantes alertando do perigo: - mantenha à
distância, carga inflamável.
Sensores de velocidade se erguiam como sentinelas
no meu do horizonte, juízes avaliando cada movimento meu. Frustrante reduzir
para os oitenta quilômetros por hora!
Do para-brisas, a estrada se desenrolava. Do
retrovisor, com a poeira, ela fugiu de mim.
Início e fim, partida e chegada, como numa viagem,
todos passam a existir com aquela corrida frenética dos espermatozoides,
acelerados. E a morte, como o fim da linha, freando.
Com os anos, peguei o volante, definindo com
consciência, ou não, o percurso a ser trilhado.
Poderia pegar um caminho reto, com a velocidade
permitida, ou um tortuoso e cheio de obstáculos, como aqueles aventureiros.
Os que buscam adrenalina, vivem como se fosse o
último. Carpe Diem, ora!
Então, acelerei passando do limite o meu Volks 1978
e o carrinho perdeu o rumo na Curva do Diabo. E, num segundo, estávamos de
ponta cabeça dentro de uma ribanceira na beira da estrada. O mundo de pernas
para o ar, com fraturas e fissuras.
Fui resgatado pelo SAMU, mas melhor sorte não teve
meu amigo, pois o guincho o sepultou num ferro-velho. Nunca mais voltou do
cemitério.
(*) cronista
e contista.

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