quarta-feira, 4 de outubro de 2023

Curva do Diabo


 

Curva do Diabo

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

A chave girou e acelerei, enquanto meu braço esquerdo, balançando para fora, ondulava ao sopro da estrada. O cheiro de terra molhada depois de vários meses de seca na peculiar Caatinga invadiu o carro, marcando sua bem-vinda presença. 

 

O para-brisas filmou várias placas: Volta da Jurema, Da Raposa, Curva da Saudade e Curva das Escolhas. Nomes impressos na minha cabeça.

 

Estrada adentro, deparei-me com um quebra-molas: blasfemei do engenheiro cujo objetivo principal foi reduzir o vento fresco vindo da janela.

 

Sacanagem! Vou ter que engatar outra vez a primeira marcha, pensei em voz alta.

 

Numa parada rústica no meio do nada, estava a jovem mulher com aquele vestido desenvergonhado e vermelho. E como uma cereja, aquela boca carnuda e pequena, - o que a apelidei afetuosamente de boca de ilhós.

 

Seria eu o amante acidental?

 

Mandou-me beijos. Acelerei deixando uma nuvem de poeira rubra para trás.

 

Passei por postos de gasolina, com seus cafés recém-coados, bolos de caroços e de pubas.

 

Um carro à beira da via com um capô aberto, galhos-quebrados e um enigma. Parar e ajudar o próximo, ou seguir viagem?

 

Uma depressão e outras. Altos e baixos.

 

Desacelerando e acelerando, ultrapassei com cuidado um caminhão cheio de cores e faixas vibrantes alertando do perigo: - mantenha à distância, carga inflamável.

 

Sensores de velocidade se erguiam como sentinelas no meu do horizonte, juízes avaliando cada movimento meu. Frustrante reduzir para os oitenta quilômetros por hora!

 

Do para-brisas, a estrada se desenrolava. Do retrovisor, com a poeira, ela fugiu de mim.

 

Início e fim, partida e chegada, como numa viagem, todos passam a existir com aquela corrida frenética dos espermatozoides, acelerados. E a morte, como o fim da linha, freando.

Com os anos, peguei o volante, definindo com consciência, ou não, o percurso a ser trilhado.

 

Poderia pegar um caminho reto, com a velocidade permitida, ou um tortuoso e cheio de obstáculos, como aqueles aventureiros.

 

Os que buscam adrenalina, vivem como se fosse o último. Carpe Diem, ora!

 

Então, acelerei passando do limite o meu Volks 1978 e o carrinho perdeu o rumo na Curva do Diabo. E, num segundo, estávamos de ponta cabeça dentro de uma ribanceira na beira da estrada. O mundo de pernas para o ar, com fraturas e fissuras.

 

Fui resgatado pelo SAMU, mas melhor sorte não teve meu amigo, pois o guincho o sepultou num ferro-velho. Nunca mais voltou do cemitério.

 

 (*) cronista e contista.

 

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