sexta-feira, 29 de setembro de 2023

Entre dedos, pernas, estacas, mamas e urinóis

 


              Entre dedos, pernas, estacas, mamas e urinóis

 

*Fabrício Carvalho Amorim Leite

 

Exames médicos, embora bem-vindos para a precaução de doenças, nem sempre são agradáveis. Alguns, pelo contrário, põem à prova nossa dignidade e vulnerabilidade.

Por exemplo, consideremos o exame de próstata: muitos homens barbudos, já entrando na faixa dos quarenta e cinquenta o evitam, embora haja uma humanitária aplicação de vaselina durante o famigerado. Pelo menos, tenta-se diminuir o embaraço.

Há, também, para as mulheres, o desafiador Papanicolau. Naquela posição invasiva em uma maca com suportes, pernas abertas, expostas a olhares clínicos e, às vezes, cínicos. Intimidades à flor.

E a colonoscopia? Mesmo com os manuais médicos sugerindo uma anestesia antes, com promessas de alívio, estar de lado e com o bumbum exposto, antes de ser “empalado” no ânuo à moda Vlad Drácula, é complicado.

Não adianta se irritar e reclamar: o Dr.Tepes (o Empalador, em romeno), colocará, com um sorriso brejeiro, sua estaca moderna (um tubo fino e flexível) na região íntima da vítima.

A mamografia, também, é um examezito do rol, porque se colocam os seios numa placa e, depois disso, serão esmagados como se fossem aquelas bolinhas anti-stress de amassar. Esvaziar a mente durante? Nem pensar.

E, como nem tudo são dedos, pernas abertas, mamas e estacas, há o teste de fluxometria urinária.

Ao paciente, cabe, com a bexiga cheia e prestes a estourar, direcionar o seu jato de xixi ao urofluxômetro, cujo o papel é medir a velocidade e força do cobiçado jorro. Um aparelho com forma de um funil conectado a um vaso.

A antessala do referido é uma cena à parte. Pode-se ver um corredor apinhado de gente segurando seus copos cheios de água e sem sede, cujas missões únicas na Terra é atingir o ponto de equilíbrio entre a bexiga cheia e o acerto do buraco do bendito instrumento.

Rostos pesados, com medo de um jato precoce (apesar das fraudas geriátricas usadas por muitos) e de falhar nessa luta forçada para acertar o buraco do aparelho e, ainda, conseguir a maior velocidade do mijo. Uma mistura de urgência e ansiedade.

Arlindo, aquele ex-fuzileiro e ex-atleta de expressão grave, com um pesado suspiro, na primeira tentativa, diz: “Não consegui”.

O médico, tentando disfarçar a contrariedade, fala: “Tudo bem, o senhor pode voltar ao final da fila, dê algumas respiradas suaves e beba mais seis copos de água”.

Arlindo, cabisbaixo, fecha parcialmente a braguilha das calças de brim, caminha até o final da ala, encontrando-se com seu conhecido, Manelito, também ex-militar e sequestrado pelo Alzheimer.

– Como vai, Manelito? interrogou Arlindo.

– Mais ou menos, Arlindo, já é a terceira vez que tento acertar o urinol e estou para ser banido do batalhão.

– Urinol? Batalhão? Como, assim? – perguntou Arlindo.

– Sim. É como faço na caserna (casa), fecho os olhos, abro a braguilha, pego o mosquetão e miro o penico, mas, sempre tem a Dorotéia para passar o pano e detergente, né?

– Aqui? Bem, negativo, acerto às divisórias do consultório, o computador e, pela última, foi o médico. Isso é uma sacanagem!

 (*) cronista e contista.

 


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