Tonzinho, o médico e o bolo.
*Fabrício Carvalho Amorim Leite
Crianças! Esses seres amorosos e anteprojetos
de adultos, que nos trazem paz e amor, mas, ao mesmo tempo, testam nossa
paciência como ninguém.
Em um inesquecível aniversário de
cinco anos, o cristão batizado como Antônio da Paz, e carinhosamente chamado de
Tonzinho, revelou o seu superpoder infantil.
A sala estava repleta de balões
coloridos, brinquedos, atrações e comidas típicas, como pipoca, brigadeiro,
balas e salgadinhos.
Os adultos, seguindo a tradição, se
empanturravam de bebidas, petiscos e até churrasco.
Crianças e adultos riam, cantaram,
choravam e se divertiam entre as mesas.
Um típico, feliz e democrático
aniversário infantil. Até então.
De repente, croc! Ai! Um som seco e
agudo ecoou na sala.
Um gemido saiu da boca do melhor
amigo do pai, após cair diretamente no duro azulejo da sala de visitas,
resultando em uma situação constrangedora.
Tonzinho, astutamente, puxou a
cadeira de seu amigo, fazendo-o cair no chão!
O pai, um homem antes bem corado,
mudou de cor para um tom meio cinza, meio branco. Estava cabrobó.
Enquanto a mãe de Tonzinho, com um
sorriso fatigado no rosto, somente observava a cena. Não sabia onde se meter e
quase desmaiou.
Foi tomar água com açúcar na cozinha e sequer voltou de lá. Sumiu.
-Filhinho de uma peste, vem cá! Estou com o meu cinturão de couro para te dar umas boas lapadas! Disse o pai, com mais uma de suas habituais encenações. Ele nunca agrediu o Tonzinho.
Conversa sobre os comportamentos do Tonzinho? Nada adiantava. Era um
verdadeiro vulcão.
Ainda insatisfeito, fez da mesa um
carrossel, girando sem parar enquanto olhava como um atirador de elite o chique
bolo branco e azul com chantilly de dois andares.
E gargalhava, pois, ainda em seus pensamentos
infantis, ele era literalmente o centro das atenções.
- Não vai me pegar, papaizinho! - Zombava, mostrando a desafiadora língua vermelha, como a Excalibur.
Como todos esperavam, a mesa e o bolo foram ao chão.
A sala inteira pareceu congelar por um instante, enquanto todos assistiam, de olhos estufados e bocas abertas, à nova cena que se desenrolava diante deles.
O som estridente da madeira se partindo e das porcelanas holandesas da mãe se estilhaçando ecoou pela sala, misturando-se ao grito abafado de alguns convidados.
O elegante bolo de dois andares com chantilly e laço azul, que antes era uma luxuosa sobremesa, espalhou-se pelo chão como uma pasta azul e lamacenta, misturando-se aos cacos das bandejas e dos copos quebrados.
O ar ficou impregnado do cheiro adocicado do bolo e do amargo odor dos choros e soluços derramados. Sim, uma salada de emoções.
E, na confusão, Tonzinho aproveitava e fugia pelo buraco da cerca do quintal, em sua apoteose.
Um colega de escola filmou tudo com seu moderno celular e, rapidamente, postou no Instagram, YouTube e Facebook. Legal! Ganhei várias curtidas! Estou feliz!
- Esse menino tem hiperatividade - avaliou o padeiro da cidade, em seu delirante e oral laudo, seguindo a moda atual dos diagnósticos amadores.
- Ele já foi falar com um padre de Roma? - Sugeriu um aficionado em filmes de exorcismo, como O Ritual, de Anthony Hopkins.
O Juiz de Menores, testemunhando tudo e, sempre judicioso e formal, começou a falar de leis, artigos e das vantagens do formidável Estatuto da Criança, com suas medidas a serem aplicadas no caso do pequeno infrator:
- Vejo uma possibilidade de notificar o caso ao Comissário de Polícia Baretta. Realmente, é um caso de Polícia e Justiça - sentenciou.
Outra convidada, a Dona Imaculada Conceição de Maria, antes padrão de discrição quase monástica, não conteve uma longa crise de risos e soluços, desculpando-se em seguida, após olhares de censura.
Meu Deus, minha Nossa Senhora, Virgem Maria, chamem um médico para salvar este pobre cristão! - Gritou uma Beata já um pouco velhinha, dando-se conta após vários minutos da queda do convidado.
Era uma mulher devotada, frequentadora assídua da missa, faça chuva ou sol, e rezava de joelhos, mesmo com uma artrose neles.
E foi o bêbado oficial da cidade, que encerrou a contenda, dizendo:
- Estou um tanto tonto, mas nem tanto... impossível chamar um médico. É o médico da cidade quem está aí no chão! Doutor Epaminondas!
- Garçom, coloque o gelo do meu copo no calombo da cabeça dele, traga uma dose reforçada para o Doutor e aumente o som!
- Amigos, não exagerem, criança d´hoje é assim mesmo!
(*) Advogado e cronista.


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