A orquestra, o maestro e o tempo
* Fabricio Carvalho Amorim Leite
Naquela ensolarada manhã de domingo, meu filho de 19
anos despertou cedo, ansioso para assistir à apresentação da orquestra
sinfônica ao lado de sua namorada.
Enquanto o observava, mal podia imaginar que aquele
momento mágico o levaria a uma viagem ao passado, revelando um enredo
entrelaçado que envolvia a todos nós.
No mesmo mês, há quase duas décadas, nos ímpetos da
juventude, subi no palco e declarei toda a paixão tão bem contada pelos poetas.
Minha esposa, pela surpresa, emocionada e nervosa, conteve o medo de um aborto espontâneo.
Meu filho, (in) conscientemente, no ventre, certamente, sentiu o momento.
A plateia cheia, e com sentimentos ambíguos de
espanto, admiração e reprovação, testemunhou o início de um amor que desafiaria
o tempo.
O maestro, um esbelto e bem alinhado quarentão,
trajando um belo fraque negro e sua inconfundível boina, ficou estático e, com
sua batuta e regência de décadas, parou o espetáculo em um gesto empático e
sensível.
Com a força de Vênus ao meu lado, parei por alguns
segundos para tomar ar, pisei firme no chão do palco lotado e olhei em direção
à minha esposa.
E com todas as emoções presas nos pulmões,
descarreguei em alto e bom som, sem gaguejar:
- É quem
escolhi até o meu último suspiro neste mundo! - Depois, levei as frias mãos ao
peito, como se, involuntariamente, tivesse reforçando os sentimentos.
Agradeci ao maestro. Desci os pequenos degraus. Caminhei em direção a minha esposa, sem
sentir o chão, e, em seguida, tirei-a do assento, em gesto carinhoso, com um beijo
caloroso.
E, alguns, contiveram a leve inveja diante da ousadia em um palco lotado. Porém, expressei minha paixão. Sim, como proclamei...
Lado a lado, partimos com Vênus.
Atualmente, o maestro, com cabelos brancos e sua habitual
boina na cabeça, ainda rege a orquestra.
O tempo, implacável e incansável, como um rio,
seguiu seu curso, mas não roubou a essência e a memória eterna daqueles dias
vividos intensamente.
Ao longo dos anos, eu e minha esposa mantivemos a cumplicidade e o amor que nos conectou naquele dia. Nossos planos e sonhos, mesmo diante das adversidades, persistem como uma melodia tocada pelo maestro tempo.
Meu filho, vivendo sua própria história, talvez carregue em seu coração sonhos semelhantes aos nossos. Quem sabe...
Naquela manhã, como hoje, a canção "Força
Estranha", de Caetano Veloso, ressoava como uma trilha sonora para essa
narrativa, ilustrando a passagem do tempo e a persistência do amor verdadeiro.
Afinal, como diz a letra "o tempo não para e, no entanto, ele nunca envelhece".
Nestas palavras, entrelaçadas com poesia e música, fizeram-me refletir sobre a natureza efêmera da vida e a importância do amor e
dos relacionamentos que cultivamos.
Afinal, o tempo, como o grande maestro da vida, pode criar uma harmônica música de momentos inesquecíveis.
(*) Advogado e escritor.

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