quarta-feira, 19 de abril de 2023

A sabedoria da Tia Bete

 


A sabedoria da Tia Bete

Fabrício Carvalho Amorim Leite (*)

Há alguns dias, estava refletindo sobre o formato das famílias de hoje. Eu, por exemplo, possuindo uma visão antiquada, não me encaixo e ainda estou me adaptando às modernas famílias que podem ser redondas, retangulares, triangulares, e possuem outras formas que a sociedade, os relacionamentos ou o pensamento permitem.

Será que sou o único assim?

Acho que parte dessa dificuldade veio do fato de que, quando criança, tive um péssimo relacionamento com um tal joguinho de encaixe conhecido.

Sim, aquele joguinho interativo muito popular que, segundo os pedagogos, busca, ludicamente, que os infantes acomodem peças geométricas de tamanhos e formas diferentes em um tabuleiro, trazendo vários benefícios cognitivos.

Naquela brincadeira, que via como tediosa e sem propósito, ficava preso e obstinado apenas a justar a minha teimosia infantil à bendita e solitária pecinha quadrada do tabuleiro. E o universo da aula se limitava apenas a isso.

Tia Bete, minha professora da alfabetização, esforçava-se com paciência para me ajudar a compreender as outras formas geométricas.

Suas mãos delicadas e habilidosas moviam-se com presteza junto às minhas, e era uma vozinha quase infantil e mimosa que buscava me encorajar ao mundo do triângulo, círculo e hexágono. No entanto, nada conseguiu vencer a minha resistência e birra infantil.

Será que ela já adivinhava o impacto no futuro?

Porém, só sei que, apesar dos esforços da Tia Bete, fiquei reprovado na turma da alfabetização por ver o mundo de forma quadrada.

Ainda bem que, naquela época, não fui diagnosticado indevidamente com algum distúrbio ligado à minha aversão às outras formas geométricas.

Daí, após décadas e décadas em dubiedade com a caretice, agora estou a entender as novas famílias redondas, triangulares e, até, hexagonais com a mente mais aberta.

A propósito, soube que está sendo discutido um projeto de lei para conceder uma espécie de pensão alimentícia aos pets. Tal fato muito me impactou, porque ainda mal me acomodei com o começo das novas famílias humanas e seus diversos formatos, e já surgiram os pets (cachorros, gatos e outros) como membros da família.

Chamar cachorro de filho, neto e bisneto, ou outra qualificação familiar dos descendentes humanos, até já estou acomodando na minha contemporânea cabecinha no formato de um pentágono.

Porém, pensão alimentícia aos pets e, quem sabe, direito a plano de saúde e jazigo particular junto à família, por exemplo, por ora, estou assimilando as ideias. Mas, a visão está se ampliando.

Afinal, depois dessa notícia, colocando as peças da minha cabeça no lugar e com arrependimento, penso mesmo que não deveria ter desobedecido a Tia Bete e nem sido reprovado em figuras geométricas.

Ela tinha razão. E como tinha.

(*) Advogado e cronista.

 

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