A sabedoria da Tia Bete
Fabrício
Carvalho Amorim Leite (*)
Há alguns
dias, estava refletindo sobre o formato das famílias de hoje. Eu, por exemplo, possuindo
uma visão antiquada, não me encaixo e ainda estou me adaptando às modernas
famílias que podem ser redondas, retangulares, triangulares, e possuem outras
formas que a sociedade, os relacionamentos ou o pensamento permitem.
Será que sou
o único assim?
Acho que
parte dessa dificuldade veio do fato de que, quando criança, tive um péssimo relacionamento
com um tal joguinho de encaixe conhecido.
Sim, aquele
joguinho interativo muito popular que, segundo os pedagogos, busca,
ludicamente, que os infantes acomodem peças geométricas de tamanhos e formas
diferentes em um tabuleiro, trazendo vários benefícios cognitivos.
Naquela
brincadeira, que via como tediosa e sem propósito, ficava preso e obstinado
apenas a justar a minha teimosia infantil à bendita e solitária pecinha
quadrada do tabuleiro. E o universo da aula se limitava apenas a isso.
Tia Bete,
minha professora da alfabetização, esforçava-se com paciência para me ajudar a
compreender as outras formas geométricas.
Suas mãos delicadas
e habilidosas moviam-se com presteza junto às minhas, e era uma vozinha quase
infantil e mimosa que buscava me encorajar ao mundo do triângulo, círculo e
hexágono. No entanto, nada conseguiu vencer a minha resistência e birra
infantil.
Será que ela
já adivinhava o impacto no futuro?
Porém, só sei
que, apesar dos esforços da Tia Bete, fiquei reprovado na turma da
alfabetização por ver o mundo de forma quadrada.
Ainda bem
que, naquela época, não fui diagnosticado indevidamente com algum distúrbio
ligado à minha aversão às outras formas geométricas.
Daí, após
décadas e décadas em dubiedade com a caretice, agora estou a entender as novas
famílias redondas, triangulares e, até, hexagonais com a mente mais aberta.
A propósito, soube
que está sendo discutido um projeto de lei para conceder uma espécie de pensão
alimentícia aos pets. Tal fato muito me impactou, porque ainda mal me acomodei
com o começo das novas famílias humanas e seus diversos formatos, e já surgiram
os pets (cachorros, gatos e outros) como membros da família.
Chamar
cachorro de filho, neto e bisneto, ou outra qualificação familiar dos
descendentes humanos, até já estou acomodando na minha contemporânea cabecinha
no formato de um pentágono.
Porém, pensão
alimentícia aos pets e, quem sabe, direito a plano de saúde e jazigo particular
junto à família, por exemplo, por ora, estou assimilando as ideias. Mas, a
visão está se ampliando.
Afinal,
depois dessa notícia, colocando as peças da minha cabeça no lugar e com
arrependimento, penso mesmo que não deveria ter desobedecido a Tia Bete e nem
sido reprovado em figuras geométricas.
Ela tinha
razão. E como tinha.
(*)
Advogado e cronista.

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